SUGESTÕES DA SEMANA

09/01/2026 — Sugestão da Semana por Luísa Pinto | FIGO Statement on Respectful Care: Addressing Disrespectful Maternity Care.

Por Luísa Pinto PhD | Assistente Hospitalar Graduada Sénior da ULSSM/H Sta. Maria // Presidente da SPOMMF

Talvez a reflexão mais inquietante relativa a este e outros artigos sobre “cuidados respeitosos em saúde materna” seja precisamente esta: o facto de termos de os nomear e discutir. O respeito, a dignidade, a escuta e o consentimento informado, não deveriam constituir um domínio específico do debate em saúde, nem uma área de inovação ou de boas práticas – deveriam ser o alicerce inquestionável de qualquer cuidado em saúde. Quando o respeito se transforma em agenda, é porque deixou de ser norma, e isso é preocupante.

Em Obstetrícia, esta contradição torna-se particularmente visível. Trata-se de uma área onde mulheres maioritariamente saudáveis entram num sistema por vezes altamente medicalizado, onde a vulnerabilidade é muitas vezes confundida com passividade, e onde a assimetria de poder entre profissionais e grávidas se normalizou ao longo do tempo, enraizados numa cultura histórica de paternalismo clínico e em tradições institucionais.

Há também um paradoxo desconfortável: sistemas de saúde tecnicamente avançados coexistem com experiências de cuidado que deixam marcas de desumanização. Isto lembra-nos que, não podendo descurar a segurança, a qualidade em saúde não se mede apenas por indicadores clínicos, mas também pela forma como as pessoas sentem ser tratadas nos momentos de maior fragilidade.

Talvez o objetivo último não seja discutir ou acrescentar o “respeito” como um adjetivo aos cuidados, mas torná-lo novamente invisível — no sentido em que esteja tão profundamente integrado que deixe de precisar de ser nomeado. Quando chegarmos a esse ponto, este deixará de ser um tema de reflexão e passará a ser simplesmente o modo como cuidamos. As normas e teorias existem. Agora, que cada um faça a sua parte para que tal se torne uma realidade!