SUGESTÕES DA SEMANA

16/01/2026 — Sugestão da Semana por Bruno Carrilho | The association between serum soluble fms-like tyrosine kinase-1, placental growth factor, and soluble fms-like tyrosine kinase-1/placental growth factor ratio in singleton pregnancy and placental abruption: a systematic review and meta-analysis

Por Bruno Carrilho | Assistente Hospitalar Graduado Ginecologia-Obstetrícia da ULS São José – pólo Maternidade Dr. Alfredo da Costa

O descolamento prematuro da placenta (DPP) associa-se a elevada morbimortalidade materna e fetal e, pela sua natureza frequentemente imprevisível, constitui a manifestação clínica mais grave e temida da tríade da insuficiência uteroplacentária.

Este artigo apresenta uma revisão sistemática com meta-análise de 6 estudos observacionais (coortes prospectivas ou retrospectivas e estudos caso-controlo) publicados até março de 2025. Os autores avaliaram a associação entre o risco de DPP em gestações únicas e os níveis séricos de biomarcadores angiogénicos maternos — o soluble fms-like tyrosine kinase-1 (sFlt-1), o placental growth factor (PlGF) e a razão sFlt-1/PlGF. A comparabilidade entre estudos foi um ponto fraco importante. Face à elevada heterogeneidade estatística, a meta-análise foi realizada com modelo de efeitos aleatórios.

Concentrações mais elevadas de sFlt-1 associaram-se o DPP, sobretudo quando medidas na segunda metade da gravidez (> 21 semanas). Por outro lado, os autores identificaram uma associação mais robusta e consistente da razão sFlt-1/PlGF com este desfecho em qualquer idade gestacional. Porém, a associação perdeu significância estatística na coocorrência de pré-eclâmpsia (PE).

Estes achados reforçam que o DPP integra o espectro da insuficiência uteroplacentária, partilhando mecanismos fisiopatológicos com a PE e a restrição do crescimento fetal (RCF), nomeadamente o desequilíbrio angiogénico.

Do ponto de vista clínico, este artigo reforça a importância crescente dos biomarcadores angiogénicos na abordagem da insuficiência uteroplacentária. Já amplamente utilizados na atuação clínica da PE e RCF, estes marcadores serão igualmente úteis na estratificação do risco de descolamento prematuro da placenta, sobretudo em mulheres normotensas.

Apesar das limitações decorrentes do número reduzido de estudos, os biomarcadores revelam elevado potencial para integração futura em modelos preditivos e protocolos de conduta obstétrica, visando a prevenção dos desfechos mais graves da insuficiência placentária. Contudo, são necessários estudos prospetivos de maior dimensão para a sua validação e para a definição de pontos de corte clinicamente relevantes.