Por Elsa Nunes | Assistente Hospitalar Graduada // Doutorada em Medicina I Professora Auxiliar Convidada da Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade da Beira Interior // Membro da Direção do Colégio da Especialidade de Ginecologia
A Federação Internacional de Ginecologia e Obstetrícia (FIGO) publicou em julho de 2025 um artigo pioneiro sobre a abordagem da doença oncológica na gravidez. É um guia de boas práticas baseadas em evidência científica, sobre o diagnóstico e tratamento do cancro na gravidez, com recomendações que podem ser adotadas em todos os contextos de recursos.
O cancro durante a gravidez é relativamente raro, mas espera-se que aumente globalmente com o aumento da idade materna. A FIGO destaca que as alterações fisiológicas da gravidez podem atrasar o diagnóstico e a falta de experiência na abordagem destes casos pode levar a resultados negativos tanto para a mãe quanto para o feto. Este artigo enfatiza que, na maioria dos casos, os princípios do tratamento oncológico não diferem significativamente daqueles aplicados a pacientes não grávidas.
Salientam-se alguns pontos fundamentais:
– A cirurgia pode ser realizada em qualquer idade gestacional quando indicada, embora o início do segundo trimestre seja preferível. As abordagens laparoscópicas são recomendadas quando adequadas;
– A radioterapia é geralmente evitada, particularmente a radioterapia pélvica, embora possa ser considerada no primeiro trimestre com planeamento cuidadoso;
– A quimioterapia deve ser evitada no primeiro trimestre, mas pode ser administrada a partir do segundo trimestre, utilizando os esquemas habituais;
– A tromboprofilaxia com heparina de baixo peso molecular deve ser realizada em todas as grávidas com doença oncológica ativa;
– Os testes pré-natais não invasivos (NIPT) devem ser evitados, porque o cancro materno aumenta a taxa de falsos positivos;
– A vacinação deve seguir as diretrizes habituais na gravidez.
A FIGO enfatiza a importância da abordagem multidisciplinar envolvendo oncologistas, cirurgiões, radiologistas, obstetras, neonatologistas e outros especialistas. Uma abordagem coordenada é essencial para garantir tanto a saúde materna quanto o bem-estar fetal.