Por Andrea Lebre | Assistente Hospitalar Graduada de Ginecologia e Obstetrícia; Coordenadora da Unidade do Primeiro Trimestre; Serviço de Obstetrícia – Centro Materno Infantil do Norte – ULS de Santo António, Porto
A síndrome antifosfolipídica (SAF) é uma doença auto-imune que é caracterizada por trombose arterial, venosa ou microvascular, e/ou complicações obstétricas, e/ou manifestações não-trombóticas clinicamente significativas, que ocorrem em pacientes com anticorpos antifosfolipídicos (AAF) persistentemente positivos. As complicações obstétricas mais frequentes são a perda gestacional recorrente, a morte fetal, a pré-eclâmpsia severa/ precoce e a prematuridade (< 34 semanas) por disfunção placentária. Os critérios de definição de SAF foram introduzidos em 1999 em Sapporo, revistos em 2006 em Sydney e por último pelas sociedades de reumatologia americana (ACR) e europeia (EULAR) em 2023. No entanto estes recentes critérios parecem apresentar uma especificidade altíssima (99%) à custa de uma perda de sensibilidade, sobretudo afectando os casos diagnosticados de SAF obstétrico. Os autores deste estudo multicêntrico decidiram reclassificar uma coorte de 1200 mulheres previamente diagnosticadas com SAF de acordo com os critérios de Sydney, aplicando os critérios de SAF da ACR/EULAR de 2023. Constatou-se uma redução de 78% de casos de SAF, principalmente pela desvalorização do impacto das perdas fetais recorrentes ou de mortes fetais não associadas a pré-eclampsia ou insuficiência placentária, e da positividade de anticorpos antifosfolipídicos (AAF) IgM, tal como da valorização da positividade dos AAF em unidades fixas e não considerando acima do p99. Os critérios ACR/EULAR, apesar de serem muito específicos, podem enviesar a investigação clínica na SAF, limitando a comparação entre estudos e impedindo a inclusão de casos que beneficiariam de tratamento, pelo que os autores recomendam que os critérios clínicos devem ser valorizados e adicionados em estudos futuros. O elevado número de participantes confere robustez ao estudo, embora os autores refiram como limitação a falta de documentação de alguns dados para a classificação de SAF, tais como a trombocitopenia e o envolvimento valvular cardíaco.