Por Natália Marto | Médica especialista em Medicina Interna e Farmacologia Clínica no Hospital da Luz Lisboa; Professora Auxiliar da NOVA Medical School; Investigadora da iNOVA4Health; Membro do Conselho Nacional da Política do Medicamento
A saúde mental é cada vez mais reconhecida como um determinante crítico da saúde materno-fetal. Dados de países desenvolvidos como o Reino Unido, os Estados Unidos e a Austrália identificam o suicídio como uma causa relevante de mortalidade materna. Ainda assim, a depressão e a ansiedade durante a gravidez permanecem frequentemente subtratadas, em grande parte devido a receios sobre a segurança dos psicofármacos, num contexto de evidência limitada ou contraditória. Estes receios foram recentemente reavivados quando um painel consultivo da Food and Drug Administration reviu o uso de inibidores de recaptação da serotonina durante a gravidez e se focou nos potenciais riscos para o feto em desenvolvimento, em detrimento da saúde materna.
Neste contexto, o estudo First trimester antidepressant use and miscarriage destaca-se pelo seu potencial impacto clínico. Numa coorte de mais de 1 milhão de gravidezes, encontraram prescrição de antidepressivos no primeiro trimestre em mais de 73 mil gravidezes (7.2%). O uso de antidepressivos no primeiro trimestre associou-se a um pequeno, mas clinicamente pouco relevante, aumento do risco de perda gestacional (13,6% vs 13,1%). Crucialmente, não se observou aumento de risco nas mulheres que já se encontravam medicadas antes da gravidez e mantiveram o tratamento, enquanto o uso incidente no primeiro trimestre apresentou uma associação mais elevada, provavelmente influenciada por confundimento residual.
Entre os pontos fortes destacam-se a dimensão da amostra, utilização de dados de vida real, boa representatividade populacional e a utilização de metodologias robustas, incluindo ajustamento de confundidores, propensity score matching e análise de gravidezes discordantes. Como limitações, salientam-se a natureza observacional, a possibilidade de confusão por indicação residual (nomeadamente gravidade da doença), o potencial erro de classificação da exposição e o risco de causalidade reversa (por exemplo, o antidepressivo foi iniciado após a perda gestacional).
As implicações clínicas são claras: os resultados são globalmente tranquilizadores e suportam a continuidade ou início de antidepressivos quando clinicamente indicados, reforçando uma abordagem individualizada de avaliação risco-benefício e ajudando a contrariar o subtratamento da doença psiquiátrica na gravidez.