Por Vera Trocado | Assistente Hospitalar de Ginecologia e Obstetrícia na ULS São João
A pré-eclâmpsia de termo é a forma mais comum desta condição (75% dos casos) e é responsável por mais de metade das mortes maternas associadas. Até à data, não existe intervenção eficaz para a sua prevenção — a aspirina reduz em cerca de 60% a pré-eclâmpsia pré-termo, mas não a de termo.
O PREVENT-PE demonstra que o rastreio às 35–36 semanas baseado no modelo de risco da Fetal Medicine Foundation (fatores maternos, tensão arterial média, PlGF e sFlt-1), com programação do parto entre as 37 e as 40 semanas nos casos de risco elevado (≥1/50), reduz a pré-eclâmpsia em cerca de 30% (RR 0,70; IC95% 0,58–0,86), com um NNT de 1:13 — menos 68 casos no grupo de intervenção — sem aumento de cesarianas emergentes ou de internamentos neonatais prolongados. A amostra é robusta (n=8094) e com elevada adesão, embora num ensaio aberto realizado em apenas dois centros no Reino Unido.
Do ARRIVE ao PREVENT-PE: o ARRIVE trial demonstrou que a indução universal às 39 semanas em nulíparas de baixo risco reduz distúrbios hipertensivos (RR 0,64) e cesarianas (RR 0,84), mas com custos significativos — Hersh et al. estimaram um custo incremental de 2 mil milhões de dólares anuais nos EUA. O PREVENT-PE seleciona apenas ~22% das mulheres, concentrando a intervenção no grupo de alto risco. Considerando os custos elevados da pré-eclâmpsia, a prevenção destes 68 casos traduz-se em poupanças potencialmente substanciais — a análise económica formal está em curso.
O rastreio às 11–13 semanas (modelo de Nicolaides) revolucionou a predição da pré-eclâmpsia pré-termo, mas a sua capacidade para a de termo é modesta. O PREVENT-PE completa esta pirâmide com um checkpoint às 36 semanas, transformando a consulta de termo num momento crucial de estratificação de risco com potencial de melhoria de desfechos nos distúrbios hipertensivos da gravidez.