SUGESTÕES DA SEMANA

31/07/2026 — Sugestão da Semana por Carla Marinho | New biomarkers for the detection of fetal death derived from large-scale proteomic analysis of maternal plasma

Por Carla Marinho | Assistente Hospitalar Graduada Ginecologia/Obstetrícia ULS- Tâmega e Sousa, Penafiel

Apesar dos notáveis avanços da Obstetrícia e da Medicina Materno-Fetal nas últimas décadas, a prevenção da morte fetal continua a ser um dos maiores desafios da nossa especialidade. A morte fetal, particularmente a tardia, mantém-se um evento frequentemente imprevisível e difícil de prevenir, o que reforça a necessidade de identificar novos marcadores capazes de reconhecer precocemente as gravidezes em risco.

Romero e colaboradores realizaram um estudo caso-controlo retrospetivo que incluiu 38 mulheres com diagnóstico de morte fetal (entre as 20 e as 40 semanas de gestação) e 23 controlos com gravidez sem complicações. O objetivo foi identificar novos biomarcadores maternos capazes de melhorarem a discriminação da morte fetal em comparação com os marcadores atualmente mais estudados, o PlGF (placental growth factor) e o sFlt-1.

Para o efeito, os autores recorreram a uma plataforma proteómica de larga escala que permitiu analisar mais de 7.000 proteínas plasmáticas. As amostras de plasma foram colhidas no momento do diagnóstico nos casos de morte fetal, enquanto nos controlos foram utilizadas amostras obtidas durante a vigilância obstétrica de rotina, emparelhadas por idade gestacional.

Embora o PlGF e o sFlt-1 sejam biomarcadores bem estabelecidos de disfunção placentária e apresentem associação com a morte fetal, a sua especificidade (quando usados isoladamente) é limitada, uma vez que também se encontram alterados noutras patologias obstétricas, nomeadamente na pré-eclâmpsia e na restrição do crescimento fetal.

O estudo identificou 87 proteínas diferencialmente expressas entre os casos e os controlos e demonstrou que a incorporação de novos biomarcadores, particularmente CGA, DNAJB9 e POLR3K, melhoram significativamente a capacidade de discriminação da morte fetal quando combinados com o PlGF e o sFlt-1. Os resultados sugerem que a fisiopatologia da morte fetal envolve não apenas alterações angiogénicas relacionadas com a disfunção placentária, mas também mecanismos imunológicos, metabólicos e de desenvolvimento fetal.

Relativamente aos casos de morte fetal associados a pré-eclâmpsia, os autores observaram um padrão proteómico semelhante ao encontrado na pré-eclâmpsia com nado-vivo, embora com alterações de maior magnitude. Algumas proteínas, como TCN2, G6PD e HAMP, pareceram estar especificamente associadas aos casos de pré-eclâmpsia que evoluíram para morte fetal, sugerindo a existência de vias fisiopatológicas distintas.

Apesar do interesse e da relevância dos resultados, importa reconhecer algumas limitações. Trata-se de um estudo caso-controlo retrospetivo, realizado num único centro e com uma amostra relativamente reduzida, o que pode condicionar a generalização dos resultados. Além disso, as amostras de plasma foram colhidas após o diagnóstico da morte fetal, não permitindo determinar se estes biomarcadores já estariam alterados semanas antes do evento. Assim, o seu verdadeiro valor preditivo ainda necessita de ser confirmado.

Serão, por isso, necessários estudos prospetivos, multicêntricos e com colheitas realizadas antes da ocorrência do evento para validar estes achados e determinar se estes marcadores poderão vir a integrar a prática clínica e contribuir para a prevenção deste desfecho devastador.