Por Sofia Bessa Monteiro | Assistente Hospitalar de Ginecologia/Obstetrícia – Serviço de Obstetrícia/Centro Hospitalar de S João
O diagnóstico pré-natal da vasa prévia permitiu, nos últimos anos, a mudança do paradigma duma mortalidade perinatal superior a 50% para uma taxa de sobrevida elevada. Apesar disso, os dados existentes são limitados e por vezes discordantes no que diz respeito a critérios de diagnóstico, monitorização, orientação e terminação da gravidez, motivo pelo qual foi desenhado este estudo.
Foi reunido um grupo de peritos de 13 países, com experiência reconhecida (mais de 10 grávidas por ano com vasa prévia; autores de diretrizes nacionais sobre o tema; representando mais de 80% das publicações na área). Através do método Delphi, foram submetidos a 3 rondas de questionários, com taxa de respostas e concordância superiores a 80% e 75%, respetivamente, em todas as rondas.
Foi atingido consenso em 26 das 36 questões, destacando-se:
– a definição de vasa prévia não deve ser limitada à passagem de vasos fetais até 2 cm do orifício cervical interno
– o rastreio universal deve ser feito através da avaliação ecográfica da inserção do cordão umbilical e varrimento com doppler a cores sobre a região do colo uterino em todas as grávidas no segundo trimestre
– poderá ser possível a orientação em ambulatório das grávidas assintomáticas e sem factores de risco para parto pré-termo, após um cuidadoso aconselhamento, se essa for a vontade da grávida e após consentimento informado
– na ausência de sintomatologia e fatores de risco para parto pré-termo, a cesariana deve ser programada para as 35-37 semanas, com mais de 50% dos peritos a optarem por terminar a gravidez às 36-36+6 semanas
Apesar de manter em aberto questões cruciais como a utilização de corticoterapia, o papel da vigilância ecográfica/fetal seriadas e os casos de gravidez gemelar, o consenso atingido poderá desencadear a elaboração de novas orientações e contribuir para mudanças na atitude clínica.