Por Nuno Clode | Assistente Hospitalar Sénior de Obstetricia/Ginecologia – Hospital CUF Descobertas
Na prática obstétrica actual em cerca de ¼ das gestações de termo é realizada indução do trabalho de parto (TP). Num número apreciável de casos é necessário proceder à maturação cervical e, com esse objectivo, a sonda de Foley (SF) é cada vez mais utilizada. Tem a vantagem de não se associar a contractilidade uterina excessiva o que permite que seja utilizada em ambulatório; no entanto, a sua colocação por vezes associa-se a dor e desconforto. Um método alternativo é desejável e o mifepristone, pela sua ação anti-progestagénica e capacidade de aumentar a sensibilidade aos uterotómicos sem causar taquissistolia, é forte candidato.
O objectivo deste estudo randomizado – 100 gestantes de baixo risco, ravidez de termo, feto único em apresentação cefálica, Indice Bishop (IB)<6, sem cesariana anterior e disponíveis para realizar a maturação cervical em ambulatório – foi o de avaliar se a administração de 200mg de mifepristone oral, quando comparada à colocação SF intracervical, não era inferior à taxa de inicio de TP nas 24h após o inicio da intervenção. Compararam-se também os efeitos secundários ocorridos na parturiente e no feto. Não se registaram diferenças entre os dois grupos no que concerne ao número de grávidas que entraram em TP espontâneo e no número de grávidas que apresentaram um IB > 6 na avaliação realizada 18-24h após a colocação da SF/administração mifepristone. Não se registaram complicações maternas ou neonatais em nenhum grupo
Apesar da vantagem de ser um estudo realizado num único centro, com um protocolo bem definido e registos completos, na medida em que taxa de inicio espontâneo de TP parto (33,3% vs 30,2%) foi inferior à esperada, levanta questões sobre o tamanho da amostra. Assim, se bem que o uso do mifepristone na maturação cervical em ambulatório seja promissor e pareça ser seguro, estudos com maior número de casos são desejados.