Por Inês Martins | Assistente Hospitalar de Obstetrícia e Ginecologia no Departamento de Obstetrícia, Ginecologia e Medicina da Reprodução da ULS Santa Maria, Lisboa.
A rotura uterina é sempre a principal preocupação quando se equaciona uma tentativa de parto vaginal após cesariana (TPVAC). Literatura prévia aponta um risco 0,4-1,4% na TPVAC após uma cesariana (consoante a forma de início do TP), mas rondando os 3% quando existem duas cesarianas anteriores. Se a este risco juntarmos todas as preocupações existentes no parto vaginal gemelar, percebemos porque o artigo agora publicado aflige logo no título.
Grávidas com gestação atual gemelar, com duas cesarianas anteriores e selecionadas para TPVAC foram comparadas a outros três grupos: 1) aquelas com gestação gemelar e duas cesarianas anteriores, mas submetidas a cesariana programada; 2) aquelas com gestação gemelar, apenas uma cesariana anterior e selecionadas para TPVAC; e 3) aquelas com gestação de feto único, duas cesarianas anteriores e selecionadas para TPVAC.
Nenhuma das 632 grávidas com gravidez gemelar e duas cesarianas anteriores submetidas a TPVAC apresentou rotura uterina, sendo que 37,8 % tiveram parto vaginal.
O sucesso na TPVAC foi mais do dobro quando gravidez gemelar e apenas uma cesariana anterior (aOR 2,41; IC de 95%, 2,01–2,90) ou quando duas cesarianas anteriores, mas gestação atual de feto único (aOR 2,23; IC de 95%, 1,88–2,65).
Entre os três grupos de estudo que incluíam gémeos, nem a morbilidade materna nem a neonatal compostas foram significativamente diferentes entre grupos. Carecendo de enquadramento com outros dados e evidência, talvez o antecedente de duas cesarianas não tenha de ser isoladamente uma contraindicação absoluta para TPVAC em todas as gestações gemelares, em semelhança ao que a norma da SPOMMF de 2018 já nos indica para a gestação de feto único.