SUGESTÕES DA SEMANA

30/05/2025 — Sugestão da Semana por Jorge Lima | Efficacy of therapeutic interventions for idiopathic recurrent pregnancy loss: a systematic review and network meta-analysis

Por Jorge Lima | Coordenador do Centro de Alto Risco Obstétrico do Hospital da Luz Lisboa, Professor Auxiliar Convidado da NOVA Medical School, e Investigador do Research Unit Comprehensive Health Research Centre (CHRC)

A perda gestacional recorrente (PGR) afeta entre 1% e 3% dos casais, e cerca de 50% dos casos são idiopáticos, ou seja, sem causa identificável após investigação adequada. Na ausência de terapêuticas baseadas em evidência, muitas mulheres com PGR idiopática são tratadas empiricamente com ácido acetilsalicílico, progesterona, corticosteroides, heparina de baixo peso molecular, imunoglobulina intravenosa (IVIG), emulsão lipídica e terapêutica imunológica com leucócitos.

Esta revisão sistemática com meta-análise em rede (Network Meta-Analysis – NMA) teve como objetivo avaliar a eficácia dessas intervenções terapêuticas. Foram incluídos 38 ensaios clínicos randomizados (ECRs), totalizando 6.379 participantes. Nenhuma das terapêuticas analisadas demonstrou benefícios estatisticamente significativos na melhoria das taxas de nascidos vivos ou na redução das taxas de aborto. A combinação de progesterona com hCG, inclusive, esteve associada a um risco aumentado de aborto em comparação com placebo.

Os resultados evidenciam a ausência de terapêuticas comprovadamente eficazes para PGR idiopática e mostram que muitas abordagens ainda são baseadas apenas em hipóteses teóricas. A metodologia NMA, um dos pontos fortes do estudo, permitiu comparações diretas e indiretas entre diversas intervenções, utilizando modelos hierárquicos bayesianos e a ordenação das terapêuticas por probabilidades (SUCRA), oferecendo uma visão estruturada da evidência disponível.

Outros pontos positivos incluem o seguimento das diretrizes PRISMA-NMA, a inclusão apenas de ECRs e a avaliação rigorosa da qualidade das evidências com a metodologia GRADE. Contudo, limitações como a heterogeneidade estatística e a inconsistência na notificação de eventos adversos foram observadas.

Em conclusão, a NMA não encontrou evidências convincentes de eficácia para qualquer intervenção em PGR idiopática. Esses achados reforçam a necessidade dos clínicos evitarem o uso empírico de terapêuticas não comprovadas e sugerem que tais abordagens só devem ser consideradas em contextos de ensaios clínicos eticamente validados.