Por Marta Sales Moreira | Assistente Hospitalar de Obstetrícia e Ginecologia do Centro Materno Infantil do Norte Albino Aroso, ULS Santo António
A oxitocina é o agente farmacológico mais comumente utlizado na indução do trabalho de parto (ITP). Assim, a taxa crescente de ITP veio mostrar a necessidade de otimizar os seus protocolos de utilização e manuseamento, na tentativa de evitar taquissistolia e riscos associados (estados fetais não tranquilizadores e acidemia neonatal). A descontinuação da oxitocina durante a fase activa do trabalho de parto foi proposta como solução para reduzir a exposição a este fármaco e suas complicações inerentes.
Os autores apresentam uma revisão sistemática e meta-análise de ensaios clínicos randomizados para avaliar se a descontinuação da oxitocina na fase activa do trabalho de parto reduz a taxa de cesariana, em comparação com a sua manutenção até ao parto. Foram incluídos 15 estudos com um total de 5736 grávidas. A descontinuação da oxitocina na fase activa foi associada a uma redução da taxa de cesariana (RR=0,80; IC 95%: 0,66-0,97) assim como ocorreram com menos frequência a taquissistolia uterina e os padrões de frequência cardíaca fetal não tranquilizadores (RR=0,64). No entanto, esta estratégia aumentou, em média, em 30 minutos a duração da fase activa e em 6 minutos o segundo estadio do trabalho de parto. Não houve diferenças significativas nos desfechos neonatais (admissão na unidade cuidados intensivos, índice de Apgar < 7 ao 5º minuto e pH do cordão umbilical < 7,10). Apesar dos dados promissores, os resultados são afetados pela metodologia de alguns estudos incluídos, alta heterogeneidade e possível viés de publicação. Ainda assim, os autores concluíram que a interrupção da oxitocina na fase activa do trabalho de parto pode ser uma estratégia segura e eficaz para reduzir intervenções obstétricas sem prejuízo para os desfechos maternos (hemorragia pós parto e corioamniotite) e neonatais, sendo necessários mais ensaios para confirmar estes resultados.