Por Inês Nunes | Assistente Hospitalar de Ginecologia e Obstetrícia – Directora do Serviço de Obstetrícia e Ginecologia da Unidade Local de Saúde de Gaia e Espinho
Professora Auxiliar Convidada da Faculdade de Medicina de Aveiro
Este estudo de coorte analisou 770 mulheres com histórico de diabetes gestacional (DMG) cinco meses após o parto, avaliando o perfil cardiovascular e a presença de disglicemia persistente. Foram recolhidos dados clínicos e realizados testes de tolerância à glicose, além de avaliações avançadas da função cardiovascular, como Doppler da artéria oftálmica, velocidade de onda de pulso carótida-femoral, ecocardiografia e medição da pressão arterial. Mais de metade das participantes (52,2%) apresentaram disglicemia, incluindo 47,8% com pré-diabetes e 4,4% com diabetes tipo 2.
Os principais fatores de risco associados à disglicemia persistente incluíram etnia (negra, sul-asiática, leste-asiática e mista), diagnóstico precoce de DMG (antes das 24 semanas), tratamento com insulina, aumento do IMC após o parto, pressão arterial central elevada e sinais de sobrecarga cardíaca (taxa E/e’ do fluxo diastólico mitral elevada).
A metodologia robusta, que integrou avaliações cardiovasculares detalhadas numa grande coorte, fortalece os resultados, embora a natureza observacional impeça conclusões causais diretas entre disglicemia e alterações cardíacas. As mulheres com disglicemia mantida após o parto apresentaram fenótipo distinto, com maior IMC e sinais precoces de disfunção cardiovascular, sugerindo risco aumentado de doenças cardíacas.
O estudo destaca a necessidade de investigação futura para avaliar se intervenções como perda de peso, mudanças de estilo de vida ou tratamentos farmacológicos podem diminuir o risco de desenvolver não só diabetes tipo 2, mas também patologias cardiovasculares a longo prazo neste grupo de mulheres.