Por Magda Magalhães | Assistente Hospitalar do Serviço de Ginecologia e Obstetrícia – ULS São João. Assistente Convidada da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto.
As anomalias do corpo caloso (CC), pela sua ampla expressividade fenotípica, continuam a representar um dos maiores desafios do aconselhamento pré-natal. É por isso fundamental assegurar a qualidade e uniformização dos critérios diagnósticos, com impacto no aconselhamento parental e tomada de decisão.
Este artigo, reúne, pela primeira vez, um consenso internacional sobre a avaliação e a orientação pré-natal das anomalias do CC. A aplicação do método Delphi, envolvendo especialistas de 19 países, com experiência técnica e científica demonstrada em imagem fetal, medicina materno-fetal e neurologia pediátrica, visa dar robustez às recomendações, procurando estabelecer orientações globais e padronizadas.
Entre as recomendações para a ecografia de rastreio destacam-se a aquisição sistemática do plano médio-sagital, e a não obrigatoriedade de realizar as biometrias do CC. Na ecografia diagnóstica, salienta-se que um CC hipoplásico, isolado e homogéneo, sem outros achados em ressonância magnética (RM), deve ser considerado como variante do normal, não estando recomendado estudo genético ou alterações no protocolo de vigilância. Contrariamente, nas restantes formas disgenesia (alterações na morfologia, ecogenecidade, espessura) ou agenesia do CC, deve ser realizado estudo genético, RM e adequada a orientação e vigilância. O rastreio infeccioso fica limitado aos casos em que o CC se apresente com alterações na ecogenecidade/heterogeneidade.
Como pontos fortes, salientam-se a metodologia estruturada, o rigor do processo de consenso e a representatividade internacional e interdisciplinar do painel.
As recomendações estabelecem uma abordagem padronizada e clara no que diz respeito aos critérios diagnósticos e abordagem multidisciplinar. No entanto, o estudo é limitado pela natureza opinativa do método Delphi — dependente da experiência dos peritos — e pela escassez de dados de seguimento a longo prazo que sustentem algumas decisões clínicas. Persistem divergências quanto às curvas de referência e aos cut-offs recomendados.