SUGESTÕES DA SEMANA

26/12/2025 — Sugestão da Semana por Fátima Serrano | The new age of periviability

Por Fátima Serrano | Assistente Hospitalar Graduada Sénior de Ginecologia e Obstetrícia da ULS de S. José // Professora Associada com Agregação da NOVA Medical School // Investigadora do Research Unit Comprehensive Health Research Centre (CHRC)

O artigo “The new age of periviability” aborda um dos temas mais complexos e desafiantes da obstetrícia e da neonatologia: a gestão da gravidez no limiar da viabilidade fetal. Trata-se de uma revisão atual e pertinente, num contexto de avanços técnicos, crescente complexidade ética e importantes condicionantes legais.

Um dos aspetos mais relevantes desta revisão é a forma integrada como articula dados clínicos, enquadramento ético e impacto legal. A periviabilidade é apresentada como um conceito dinâmico, sendo os desfechos perinatais influenciados por múltiplos fatores, como a idade gestacional, o peso fetal, a administração de corticoterapia antenatal e, sobretudo, os recursos institucionais disponíveis. Os autores sublinham que, embora os avanços nos cuidados neonatais tenham permitido a sobrevivência em idades gestacionais cada vez mais precoces, a sobrevivência sem morbilidade grave permanece limitada. Paralelamente, são destacados dados recentes sobre a morbilidade materna associada a estas situações, nomeadamente nos casos de rutura prematura de membranas pré-viabilidade, nos quais a interrupção da gravidez se associa a menor morbilidade materna quando comparada com a atitude expectante. Outro contributo importante do artigo é a evidência de que as decisões parentais são frequentemente mais influenciadas por valores, crenças e perceções intuitivas do que por estatísticas isoladas. Este achado reforça a importância de um aconselhamento cuidadoso e empático, baseado num modelo de decisão partilhada centrado nos valores da grávida e da família.

Como principal limitação, destaca-se o facto de se tratar de uma revisão narrativa, sem uma metodologia sistemática explícita, o que restringe a possibilidade de conclusões quantitativas robustas.

As implicações clínicas desta revisão são significativas, reforçando a necessidade de um aconselhamento individualizado e baseado em valores, que reconheça a incerteza inerente à periviabilidade e alinhe as decisões com a segurança materna, o prognóstico fetal e o contexto legal, promovendo uma prática clínica ética, humanizada e sustentada na melhor evidência disponível.