Por Carolina Vaz de Macedo | Assistente Hospitalar de Ginecologia/Obstetrícia no Hospital Garcia de Orta – ULS Almada-Seixal; Assistente Convidada Genética da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa
Este estudo prende-se com uma medida em que a Holanda foi pioneira: a eliminação do rastreio combinado do primeiro trimestre em detrimento da pesquisa de ADN fetal em sangue materno, com substituição da ecografia das 11-13 semanas (11-13S) por uma mais precoce para datação da gravidez e rastreio morfológico populacional exclusivamente na ecografia do segundo trimestre. Sendo a ecografia das 11-13S um momento-chave na nossa realidade não só para rastreio de aneuploidias como também para avaliação morfológica de determinadas estruturas, chamou-me a atenção o objetivo de investigar o eventual impacto desta alteração de política na deteção precoce de alterações morfológicas fetais.
Trata-se de um estudo de coorte retrospetivo de 705 fetos com diagnóstico pré-natal de alterações morfológicas potencialmente diagnosticáveis no primeiro trimestre, com comparação do período de antes versus depois da alteração da política de rastreio. Certas alterações morfológicas – gastrosquisis e cardiopatias graves, como defeito do septo auriculoventricular e síndrome do coração esquerdo hipoplásico – tiveram uma menor taxa de deteção no primeiro trimestre após a abolição da ecografia das 11-13S, quer globalmente quer após exclusão dos casos com alterações cromossómicas.
Apesar de a comparação entre dois períodos temporais distintos poder introduzir um viés importante na análise, não é expectável que a capacidade técnica tenha diminuído ao longo do tempo, pelo que será razoável assumir que o atraso no diagnóstico esteja efetivamente associado à ausência da ecografia das 11-13S. Para a nossa prática clínica importará salientar que certas mais-valias dos rastreios populacionais poderão não ser devidamente ponderadas em políticas de saúde pública “cegas” que apenas olhem ao custo-benefício do seu objetivo principal. Num momento em que cada vez mais grávidas opta pela colheita precoce para pesquisa de ADN fetal e traz o resultado às 11-13S, cabe-nos a nós esclarecer sobre o valor acrescentado desta ecografia para lá do rastreio de aneuploidias.