SUGESTÕES DA SEMANA

31/05/2024 — Sugestão da Semana por Mariana Torgal | Late-Preterm Antenatal Steroids for Reduction of Neonatal Respiratory Complications. A Randomized Controlled Trial

Por Mariana Torgal |  Assistente Hospital de Ginecologia e Obstetrícia – Unidade de Alto Risco Obstétrico do Hospital CUF Descobertas

A administração pré-natal de corticoides faz parte de todos os protocolos de atuação na ameaça de parto até às 34 semanas. Esta atitude tem por base a consistência dos estudos em demonstrar redução da síndroma de dificuldade respiratória (SDR) e mortalidade nesta população de recém-nascidos (RN).

Após as 34 semanas a utilização de corticoides permanece controversa pela eficácia não comprovada e pela eventual associação a efeitos adversos maternos e neonatais.

Com base no estudo ALPS a ACOG recomenda uma dose única de betametasona nas grávidas com risco de parto entre as 34 e as 36 semanas e 6 dias. No entanto outros estudos não demonstraram benefício nesta terapêutica e nalguns, com follow-up longo, a exposição aos corticoides foi associada a pior desenvolvimento neuro-cognitivo; foi também descrita associação com aumento da mortalidade infeciosa materna.

O objetivo primário deste estudo foi avaliar a eficácia em reduzir a SDR do RN, de uma dose única IM de betametasona entre as 34 e as 36+6 semanas.

Este estudo não encontrou diferença na redução do SDR (betametasona 4,9% vs placebo 4,8%). Também não foi demonstrada diferença nos desfechos secundários do RN (taquipneia transitória, enterocolite necrotizante, sepsis, hiperbilirrubinémia, hipoglicémia, morte fetal e neonatal) nem maternos (corioamnionite, hemorragia pós-parto, febre puerperal e aumento do tempo de hospitalização). Assim é sugerido que o uso de rotina de corticoides nesta idade gestacional pode ser inadequadamente justificado.

Os pontos fortes deste artigo são tratar-se de um estudo triplo-cego, randomizado e controlado com placebo com um bom tamanho de amostra (n=847). Os autores alertam para o facto de poder existir uma diferença na eficácia dos corticoides pré-natais em populações de países desenvolvidos ou relacionados com outras características populacionais. A meu ver o principal ponto fraco pode estar relacionado com este aspeto, tendo este estudo decorrido num único centro, na Índia.