Por Ana Portela Carvalho | Assistente Hospitalar de Ginecologia e Obstetrícia. Serviço de Ginecologia e Obstetrícia – Centro Hospitalar do Tâmega e Sousa
A tiróide materna desempenha um papel essencial na gravidez. As alterações da função tiroideia são frequentes, particularmente quadros de hipotiroidismo ligeiro, como o hipotiroidismo subclínico materno (HSCM) e a hipotiroxinemia materna isolada (HMI). O HSCM é definido pela presença de níveis séricos elevados de tirotropina (TSH) com concentrações normais de tiroxina livre (fT4) e a HMI cursa com níveis baixos de fT4 com TSH normal. Embora frequentes, o seu impacto, particularmente no terceiro trimestre da gravidez, sobre o bem-estar materno-fetal ainda é pouco claro.
O objetivo deste estudo prospetivo foi de avaliar o impacto do HCSM e da HMI diagnosticados no primeiro e terceiros trimestres da gestação nos desfechos perinatais.
Nos quatro anos de estudo, foram incluídas 34860 grávidas. Salientam-se os seguintes resultados. O HSCM diagnosticado no primeiro trimestre da gravidez associou-se a um menor risco de diabetes gestacional (aOR 0.64, IC95% 0.50-0.82), comparativamente às grávidas eutiroideias. Por outro lado, o HSCM do terceiro trimestre correlacionou-se com vários desfechos adversos: parto pré-termo (aOR 1.56, IC95% 1.10-2.20), pré-eclâmpsia (aOR 2.23, IC95% 1.44-3.45) e morte fetal (aOR 7.00, IC95% 2.07-23.66). A HMI do primeiro trimestre da gravidez associou-se a um maior risco de pré-eclâmpsia (aOR 2.14, IC95% 1.53-3.02), diabetes gestacional (aOR 1.45, IC95% 1.21-1.73), macrossomia (aOR 1.85, IC95% 1.49-2.31) e parto por cesariana (aOR 1.35, IC95% 1.06-1.74). Já no terceiro trimestre, apenas se correlacionou a um maior risco de pré-eclâmpsia (aOR 2.85, IC95% 1.97-4.12) e macrossomia (aOR 1.60, IC95% 1.20-2.13).
Como limitações deste estudo, salienta-se, a sua natureza unicêntrica e a ausência de dados da função tiroideia no segundo trimestre da gravidez.
Este estudo sugere que o timing de diagnóstico na gravidez de quadros de hipotiroidismo ligeiro parece ser crucial no desenvolvimento de desfechos obstétricos adversos e reforça a importância do uso de avaliações trimestrais da função tiroideia na vigilância da gravidez.