Por Sofia Pina Rodrigues | Assistente Hospitalar de Ginecologia e Obstetrícia – Serviço de Obstetrícia – Centro Hospitalar Universitário de São João
A infeção por Citomegalovírus (CMV) é a infeção congénita mais frequente (0,2-2,2%), sendo a principal causa não genética de surdez neurosensorial (1/3 dos casos). O risco de transmissão vertical do CMV após infeção primária na gravidez é 40%, ocorre através da placenta, replicando-se o vírus no epitélio tubular renal fetal e sendo o DNA viral detetado no líquido amniótico se o feto estiver infetado.
O objetivo deste estudo é comparar a incidência de lesão fetal e sequelas a longo prazo dos recém-nascidos de grávidas com infeção por CMV e resultado da amniocentese positivo versus resultado negativo.
Trata-se de uma metanálise de estudos observacionais (7 estudos, n=767) de grávidas com infeção por CMV (até 12 semanas pré-concepção e durante a gravidez) submetidas a amniocentese, cujos resultados foram reportados, assim como os desfechos dos recém-nascidos. Os desfechos primários foram as taxas de sintomas graves ao nascimento (sintomas neurológicos ou envolvimento multiorgânico) e de perda auditiva neurosensorial grave (SNHL) e/ou comprometimento do neurodesenvolvimento. O desfecho secundário foi a taxa de interrupção médica da gravidez (IMG) consequente a achados patológicos associados a esta infeção, em ecografia ou ressonância magnética.
A taxa combinada de desfechos primários nos casos com resultado de amniocentese negativo foi de 0%, contra 22% de sintomas graves e 14% de SNHL nos casos com resultado positivo. 0% de IMG nos casos de resultado de amniocentese negativo, versus 20% nos casos com resultado positivo. Houve 8% de falsos negativos da amniocentese (recém-nascidos com resultado de amniocentese negativo e resultado na urina positivo). Foi realizada uma análise de subgrupo de infeção primária por CMV com resultados sobreponíveis.
Relativamente à infeção congénita por CMV, um resultado negativo na amniocentese assegura a ausência de lesões fetais e sequelas a longo prazo decorrentes desta infeção, mesmo que a transmissão tenha ocorrido posteriormente.