SUGESTÕES DA SEMANA

02/06/2023 — Sugestão da Semana por Ana Sofia Cardoso | TRUFFLE-2 feasibility study investigators. Antenatal corticosteroids and perinatal outcome in late fetal growth restriction: analysis of prospective cohort

Por Ana Sofia Cardoso | Assistente Hospitalar de Ginecologia e Obstetrícia – Unidade Local de Saúde do Alto Minho

A administração de corticosteroides nas grávidas em risco de parto pré-termo tardio é uma questão controversa, em especial nos casos de Restrição de Crescimento Fetal (RCF). Nestes casos a maturação pulmonar e a produção de surfactante estão aceleradas como resultado de elevados níveis de cortisol plasmático pelo que se torna questionável a exposição de corticoides pré-natal no pré-termo tardio com RCF.

Este artigo resulta de uma análise secundária do estudo TRUFFLE-2 e incluiu mulheres com gestação única entre 32+0 e 36+6 semanas com fetos em risco de RCF. Nesta análise, 86 grávidas que fizeram um ciclo único de corticoterapia (casos) foram emparelhadas com 86 mulheres que não receberam corticoterapia (controlos). Os grupos eram similares no que diz respeito a parâmetros como peso fetal estimado, racio cerebro-placentar, idade gestacional no parto e peso ao nascimento. Não foram observadas diferenças no que diz respeito aos desfechos neonatais entre os casos e os controlos.

Este estudo apresenta algumas limitações. Apenas 11% da população do TRUFFLE-2 recebeu corticoterapia e a decisão de a administrar foi feita pelo clínico com base na perceção de risco perinatal. O pequeno tamanho da amostra e o facto de 11 grávidas não terem sido emparelhadas possibilita a presença de erros estatísticos que não permitem tirar conclusões definitivas sobre o benefício ou as desvantagens do uso de corticoterapia nos casos de RCF. Como ponto forte destacar que os efeitos da corticoterapia foram avaliados numa população de fetos acompanhados prospetivamente até ao parto. Casos e controlos eram semelhantes no que diz repeito aos dois principais preditores de desfechos neonatais adversos: peso e idade gestacional no parto.

Este trabalho demonstra a falta de evidência para recomendar a corticoterapia por rotina em todos os casos de RCF pré-termo tardio e a necessidade de se definir quais os subgrupos de fetos com RCF que poderão ter maior benefício com esta terapia.