Por Rita Silva | Assistente Hospitalar de Obstetricia e Ginecologia // Assistente convidada da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa.
A síndrome de HELLP (hemolysis, elevated liver enzymes, and low platelets) ocorre em cerca de 0,5% de todas as gestações e complica cerca de 15% dos quadros de pre-eclâmpsia grave. Ocorre sobretudo no terceiro trimestre da gravidez (63%) e pós parto (25%). O seu diagnóstico pode ser desafiante e as principais consequências clínicas relacionam-se com morbilidade e mortalidade maternas, que podem ditar um desfecho trágico caso não se intervenha atempadamente. O tratamento passa pela terminação da gravidez.
A síndrome de HELLP antes das 23 semanas é uma entidade rara e por isso menos caracterizada. Os autores deste trabalho realizaram uma revisão sistemática da literatura pretendendo caracterizar a apresentação clínica, evolução da doença e respetivos desfechos obstétricos e neonatais.
Como principais conclusões salienta-se: uma idade gestacional mediana ao diagnóstico de 18 semanas [13-23]; 56% dos diagnósticos foram efetuados antes das 20 semanas. Como comorbilidades a destacar: de síndroma de anticorpo anti-fosfolípido (SAAF) (14%), gravidez molar parcial (9%). Ao diagnóstico os sintomas mais prevalentes foram dor abdominal (78%) hipertensão (65%), náuseas/vómitos (36%), cefaleia (29%) e edema (18%). Descritas como mais frequentes as complicações hepáticas (23%), neurológicas (20%) e respiratórias (20%). A quase totalidade dos casos de enfarte hepático (5/6) tinham diagnóstico concomitante de SAAF. A lesão renal aguda ocorreu em 7% dos casos, reversivel em 100%.
A mortalidade perinatal foi de 73% e nesta serie registou-se 1 caso de morte materna (2%), com diagnóstico às 23 semanas e rápida evolução para eclâmpsia e paragem cardíaca, complicada por falência multiorgânica. A utilização de corticosteróides não melhorou os desfechos maternos ou neonatais.
Atendendo à raridade desta entidade e ao impacto tão significativo que o seu diagnóstico acarreta, este trabalho auxilia a gestão clínica e o aconselhamento aos casais perante o diagnóstico de síndrome de HELLP antes das 23 semanas.