Por Maria Carvalho Afonso | Assistente Hospitalar de Obstetrícia e Ginecologia / Assistente convidada de Obstetrícia e Ginecologia – Faculdade de Medicina de Lisboa
A conduta mais adequada perante uma grávida com febre intraparto isolada continua por se estabelecer. Este estudo retrospectivo visou comparar os desfechos maternos, neonatais e microbiológicos da administração de antibióticos em mulheres com febre intraparto isolada e aquelas com corioamnionite clínica. Foram incluídas mulheres em trabalho de parto a partir das 34 semanas de gestação, independentemente da colonização pelo Streptococcus do grupo B, avaliando-se casos de febre intraparto isolada (tratadas com ampicilina) e corioamnionite clínica (tratadas com ampicilina e gentamicina).
Os resultados revelaram que mulheres com febre intraparto isolada apresentaram taxas mais elevadas de endometrite puerperal e sépsis neonatal precoce em comparação com as que tinham corioamnionite clínica (8,8% vs 3,9%, p=0,03 e 4,4% vs 0,4%, p=0,005, respetivamente). A análise multivariável mostrou que a febre intraparto aumentava o risco de endometrite puerperal (OR 2,65, IC 95% 1,06 – 6,62) e sépsis neonatal precoce (OR 8,33, IC 95% 1,04 – 66,60). Além disso, observou-se que mulheres com febre intraparto tinham taxas mais elevadas de resultados positivos em zaragatoas das membranas corioamnióticas (63,9% vs 46,3%; p<0,001) e maior percentagem de agentes resistentes à ampicilina (48,9% vs 35,4%; p=0,033), comparativamente a mulheres com corioamnionite clínica. O agente mais frequentemente isolado, em ambos os grupos, foi a Escherichia coli. Com base nestes resultados, os autores sugerem que a febre intraparto pode ser uma manifestação inicial de corioamnionite clínica, devendo-se equacionar a terapêutica com ampicilina e gentamicina neste contexto. No entanto, é necessário estudos clínicos adicionais destinados a determinar o tratamento apropriado da febre intraparto isolada.