Por Ana Paula Machado | Assistente Hospitalar Graduada Ginecologia/Obstetrícia, Centro Hospitalar Universitário S. João
A corticoterapia antenatal com o objetivo de acelerar a maturidade pulmonar do feto, tem a sua eficácia estabelecida na diminuição da dificuldade respiratória do recém-nascido pré-termo, com redução da necessidade de suporte ventilatório e admissão em Unidades de Cuidados Intensivos Neonatais (UCIN). No entanto, não é claro se esta terapêutica se mantém benéfica ou mesmo se é potencialmente prejudicial, quando os recém-nascidos que a receberam chegam a termo. A evidência que tem surgido na literatura aponta para a possível existência de agravamento da função pulmonar nas crianças expostas a corticoterapia antenatal, facto que deve condicionar a ponderação do seu início nas situações em que possa não acontecer um nascimento pré-termo.
Este estudo retrospetivo pretende comparar os desfechos a curto prazo de crianças nascidas a termo, cujas mães, em contexto de ameaça de parto pré-termo, foram submetidas (ou não) a ciclo de corticoterapia com betametasona. Foram avaliadas 5330 grávidas, das quais 1459 (27,4%) receberam corticoides e 3871 não receberam. As grávidas submetidas a corticoterapia tiveram o diagnóstico de ameaça de parto pré-termo às 32,2 semanas e o parto às 38,4 semanas, comparativamente com as que não receberam, que tiveram o diagnóstico às 33,0 semanas e parto às 39,1 semanas (p<0.001). Após ajustamento para múltiplas variáveis confundidoras, os recém-nascidos expostos a corticoterapia apresentavam significativamente maior probabilidade de serem leves para a idade gestacional e maior risco de admissão em UCIN. O risco de taquipneia transitória foi semelhante entre os grupos. Assim, e em concordância com muita literatura já publicada, considera-se cada vez mais real a possibilidade de existirem efeitos nefastos associados à exposição a corticoterapia antenatal. Atendendo a que muitas das grávidas com o diagnóstico de ameaça de parto pré-termo vão, efetivamente, ter um parto a termo, a utilização desta terapêutica deve ser ponderada e não iniciada de imediato em todas as situações.