Por Iolanda Ferreira | Assistente Hospitalar de Ginecologia e Obstetrícia – Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra / Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra
A indução de trabalho de parto (ITP) é uma intervenção obstétrica comum, cujo objetivo é promover o parto vaginal. No entanto, cerca de 1/5 das grávidas terminará numa cesariana (CSA). A identificação das grávidas com maior risco de CSA após ITP é importante para o seu aconselhamento, e ajudará na aplicação parcimoniosa das várias técnicas de ITP.
Este estudo pretende avaliar a relação de algumas características materno-fetais com CSA após ITP (idade materna, IMC, índice de Bishop (IB), idade gestacional e peso à nascença). Os motivos de CSA foram divididos em dois grandes grupos, com fisiopatologias distintas: trabalho de parto estacionário (TPE) e estado fetal não tranquilizador (EFNT). Foi efetuada uma análise secundária de dados obtidos a partir de 4 RCTs (PROBAAT trials), usando modelos de regressão logística multivariada.
O risco de CSA por TPE mostrou-se aumentado em mulheres mais velhas (aOR, 1.51 (95% CI, 1.15–1.99), nulíparas (aOR, 8.07 (5.34–12.18), obesas (aOR, 1.06 (1.04–1.08), e recém-nascidos com peso à nascença ≥ p90 (aOR, 4.08 (2.75–6.05)). Estão relacionados com CSA por EFNT a nuliparidade (aOR, 5.91 (95% CI, 3.76–9.28), e peso à nascença < p10 (aOR, 1.93 (95% CI, 1.22–3.05). O IB não demonstrou relação com os motivos de CSA avaliados. Os pontos fortes deste estudo são a análise de uma grande coorte de grávidas e a separação de CSA por TPE e EFNT. Como pontos fracos destaca-se a limitação da interpretação do IB a mulheres com colo desfavorável; e a utilidade limitada da informação retirada do peso ao nascer. Este estudo conclui que, enquanto não surgem modelos prognósticos validados de sucesso de ITP, é importante incorporar características chave materno-fetais para melhor caracterizar o risco de CSA após ITP.