Por Alexandra Miranda | Assistente Hospitalar de Ginecologia e Obstetrícia, Hospital de Braga e Assistente Convidada da Escola de Medicina da Universidade do Minho
A restrição de crescimento fetal é uma condição com inequívoca associação a desfechos perinatais adversos. Não obstante, a relação entre velocidade de crescimento fetal e morbimortalidade perinatal permanece por esclarecer. O presente estudo consistiu numa análise secundária do estudo observacional prospetivo multicêntrico TRUFFLE 2 que incluiu 856 fetos com restrição de crescimento fetal entre as 32+0 e 36+6 semanas de gestação. Definiu-se como objetivo avaliar a relação entre a velocidade de crescimento fetal e sinais de redistribuição do fluxo sanguíneo cerebral fetal e sua associação com o peso à nascença e ocorrência de desfechos perinatais adversos (Apgar ou pH artéria umbilical < 7, necessidade de ressuscitação neonatal, nascimento de nado morto ou morbilidade neurológica, cardiovascular ou sépsis). Foram registados eventos adversos em 11% dos nascimentos (n=93). A ocorrência de desfechos adversos foi mais frequente entre fetos cujo crescimento, nas três semanas prévias ao parto, foi <100gr/semana (20% vs 9%, p<0.001), independentemente da presença de sinais de redistribuição cerebral. Neste grupo registou-se menor peso e idade gestacional aquando o parto. Em 8% dos fetos registou-se velocidade de crescimento negativa, sugerindo presença de metabolismo catabólico. A velocidade de crescimento fetal foi melhor preditor independente da ocorrência de desfechos adversos comparativamente à estimativa de peso fetal à data da inclusão no estudo. Porém, a análise multivariada que incluiu peso fetal estimado, velocidade de crescimento e rácio umbilico-cerebral (UCR) demonstrou a maior associação com desfechos perinatais adversos (RR 3.3). Como pontos fortes do estudo salienta-se o número de participantes e a inclusão de 33 centros de 10 países europeus. Como limitações destaca-se o erro inter e intra-observador associado à estimativa de peso fetal. Em conclusão, estes resultados são relevantes por sugerirem que a desaceleração da velocidade de crescimento fetal, mesmo na presença de achados Doppler normais, pode associar-se à ocorrência de maus desfechos perinatais.