SUGESTÕES DA SEMANA

11/11/2022 — Sugestão da Semana por Andreia Fonseca | Pregnancy, delivery, and neonatal outcomes among women with incarcerated uteri: A population-based study of a large US database

Por Andreia Fonseca | Assistente Hospitalar de Obstetrícia e Ginecologia, Serviço de Obstetrícia – Departamento de Obstetrícia, Ginecologia e Medicina da Reprodução do Hospital de Santa Maria – Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte

O encarceramento uterino ocorre em 1 em cada 3000 gestações e define-se como a retenção do útero entre a sínfise púbica e o promontório. Este artigo é uma chamada de atenção para esta complicação, cujo diagnóstico é dificultado pela sua ocorrência pouco frequente e pela forma inespecífica com que se manifesta.

Este estudo retrospetivo populacional teve como objetivo identificar fatores de risco para encarceramento uterino e estudar a correlação entre este diagnóstico e os desfechos obstétricos e neonatais. Foram incluídas mais de 9 milhões de mulheres, das quais 370 (0,004%) tiveram o diagnóstico de encarceramento uterino.

O encarceramento uterino foi mais frequente em caucasianas, fumadoras, mulheres com cesariana anterior, útero miomatoso, endometriose, massas anexiais, doença tiroideia ou história de doença inflamatória pélvica e aderências pélvicas. As mulheres com encarceramento uterino tiveram mais frequentemente o diagnóstico de placenta prévia (aOR 2,8; IC95% 1,2-6,8). O encarceramento uterino associou-se a maiores taxas de cesariana (aOR 2,4; IC95% 1,8-3,1), hemorragia pós-parto (aOR 2,8; IC95% 1,8-4,4) e necessidade de suporte transfusional (aOR 5,2; OR 3,1-8,8). Os recém-nascidos resultantes destas gestações apresentaram mais frequentemente malformações congénitas (aOR 4,0; IC95% 1,5-10,6). Os autores referem ainda uma maior frequência de hidronefrose materna e de morte fetal, apesar do baixo número absoluto de casos com estes diagnósticos.

O principal ponto forte deste estudo é a dimensão da amostra, que permite reafirmar os fatores de risco já descritos para esta entidade. A seleção de casos e análise dos desfechos apenas com base nos diagnósticos codificados aquando da admissão para o parto e a falta de informação relativa à vigilância da gravidez, redução do encarceramento e da idade gestacional em que terá sido realizada fragilizam a análise.

O encarceramento uterino parece associar-se a piores desfechos obstétricos e neonatais. Os fatores de risco a que se associa podem facilitar a suspeição diagnóstica.