Por Carla Baleiras | Assistente Hospitalar de Obstetrícia e Ginecologia, Serviço de Obstetrícia – Hospital CUF Descobertas, Lisboa
O tipo de parto nas gestações com placenta baixamente inserida – PBI -(distância entre o bordo inferior da placenta e o Orifício Interno- OI- do colo ≤ 2 cm) mantém-se controverso. Existem poucos estudos que avaliem os desfechos perinatais e a realização de estudos controlados e randomizados coloca questões éticas e dificuldade na seleção dos casos.
Este artigo compara a morbilidade materna e neonatal em gestações com PBI de ≥ 35 semanas de acordo com o tipo de parto (prova de trabalho de parto – PTP vs. cesariana eletiva)
Como pontos fortes, destaca-se o facto de ser um estudo coorte multicêntrico em que se comparou um grupo em trabalho de parto (70) com outro submetido a cesariana eletiva (101), usando uma análise de “score” de propensão para garantir que os grupos eram comparáveis, minimizando os fatores de confundimento. O seu desenho retrospetivo e, como os casos foram colhidos entre 2007 e 2012, a evolução das técnicas de imagem e as alterações dos protocolos de trabalho são fatores limitantes na interpretação dos resultados. A baixa ocorrência de morbilidade materna grave nos 2 grupos limita também o significado estatístico.
O estudo evidencia que em cerca de 40% das grávidas com PBI submetidas a PTP, ocorreu um parto vaginal sem maior risco de complicações maternas ou perinatais, nomeadamente a hemorragia pós-parto, quando comparadas com o grupo submetido a cesariana eletiva. Salienta também que se distância ao OI ≤10 mm, não parece existir aumento de incidência de HPP ou morbilidade materna grave, mas que a probabilidade de parto vaginal reduz para 18%; essa probabilidade é de 50% se a distância for > 10mm. Em casos de PBI é importante existir consentimento informado que esclareça a grávida de que a probabilidade de cesariana de emergência (cerca de 80%) aumenta com a diminuição da distância da placenta ao OI do colo.