Por Teresa Costa Castro | Assistente Hospitalar de Ginecologia e Obstetrícia, Centro Hospitalar Universitário de São João / Assistente Convidada, Faculdade de Medicina da Universidade do Porto
Nas gestações monocoriónicas (MC), a restrição de crescimento fetal selectiva (RCFs) está associada a um risco elevado de morbilidade e mortalidade perinatal. A orientação destes casos é difícil, sendo importante distinguir as gestações que podem ser tratadas de forma conservadora, com segurança, das que beneficiam de intervenção fetal.
O estudo publicado no BJOG avaliou, retrospectivamente, 108 gestações MC, complicadas por RCFs tipo II, diagnosticadas antes das 27 semanas, num período de 6 anos, num único centro. Teve como objetivo analisar o desfecho perinatal e o neurodesenvolvimento a longo prazo, nestas gestações, de acordo com a orientação terapêutica (atitude expectante, coagulação laser seletiva das anastomoses placentares por fetoscopia (CLSF), coagulação do cordão umbilical (CCU)) .
Os autores concluíram que: em gestações com discordância de crescimento fetal (DCF) <30% e sem alterações do DV, a atitude expectante é adequada (sobrevivência de ambos os fetos de 77.8%); a CLSF não é uma boa opção em gestações com RCFs tipo II (61.5% de mortalidade do feto restrito nas primeiras 24h e 23.1% do co-gémeo); a CCU é uma opção válida, para proteção do feto com crescimento normal, nas gestações com DCF>30% e alterações do DV; o neurodesenvolvimento a longo prazo não é influenciado pela opção terapêutica.
Este estudo apresenta, como pontos fortes, o elevado número de doentes incluídas (é o maior estudo de coorte conhecido, com avaliação do neurodesenvolvimento a longo prazo, em gestações com RCFs tipo II, submetidas a atitude expectante ou intervenção fetal).
Como limitações podemos referir o desenho retrospectivo, com viés de seleção para tratamento (os casos mais graves foram mais frequentemente submetidos a intervenção fetal, o que pode contribuir para os bons resultados do grupo submetido a atitude expectante); e o número reduzido de casos submetido a avaliação do neurodesenvolvimento, por perda de seguimento (particularmente no grupo de CLSF).