Por Inês Marques | Assistente Hospitalar Graduada de Obstetrícia e Ginecologia – Serviço de Obstetrícia Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra
A doença hipertensiva da gravidez é um conhecido factor de risco cardiovascular. A pré-eclâmpsia está associada a disfunção cardiovascular pós-natal e a um risco cardiovascular a longo prazo (risco de coronariopatia isquémica, de enfarte, de hipertensão arterial e de mortalidade cardiovascular em particular no caso de pré-eclâmpsia pré-termo). Podem estes eventos adversos hipertensivos ser entendidos como factores de risco, mas também uma oportunidade de prevenção primária para melhorar a saúde cardiovascular no período pós-natal. A evidência científica confirma o efeito cardioprotector dos IECAs e a segurança da sua utilização no puerpério.
O estudo PICK UP (Postnatal Enalapril to Improve Cardiovascular Function Following Preterm Preeclampsia) – ensaio randomizado duplo-cego controlado por placebo, foi realizado com o objectivo de avaliar a eficácia da terapêutica com enalapril na melhoria da função cardiovascular no período pós-natal em mulheres com pré-eclâmpsia pré-termo.
Foi efectuada ecocardiografia até 3 dias, 6 semanas e 6 meses após o parto, em 60 mulheres (30 medicadas com 20 mg de enalapril e 30 mulheres medicadas com placebo). Verificou-se uma prevalência importante de alterações ecocardiográficas e disfunção diastólica nas 60 mulheres. As mulheres tratadas com enalapril apresentaram uma melhoria da função diastólica com consequente redução do risco cardiovascular a longo prazo.
Estes resultados deverão ser confirmados em ensaio randomizado multicêntrico.
O período pós-natal constitui uma janela no rastreio e na prevenção primária, sendo uma oportunidade de intervenção na saúde cardiovascular da mulher e de melhoria dos desfechos obstétricos futuros.