Por Rui Marques de Carvalho | Assistente Hospitalar Graduado – Serviço de Obstetrícia – Hospital de Santa Maria/CHULN
A restrição de crescimento fetal (RCF) precoce, especialmente quando muito distante do termo, constitui um importante desafio na vigilância e na decisão de quando interromper a gravidez. Neste contexto, assume importância primordial o equilíbrio entre o risco de morte fetal pela adopção de uma atitude expectante e as consequências da prematuridade iatrogénica. A conduta generalizada não considera exclusivamente a avaliação da artéria umbilical em idades gestacionais inferiores a 30 semanas como útil na decisão de terminar a gravidez. Assim, este trabalho, mediante a adopção de uma atitude proactiva, baseada na ausência ou inversão de fluxos diastólicos na artéria umbilical, pretende demonstrar a necessidade de se reformularem protocolos de actuação na gestão desta entidade patológica.
Este estudo, retrospectivo, abrangeu um período compreendido entre 1998 e 2015. Foram comparados os desempenhos perinatais e neuro-desenvolvimento aos 2 anos, de fetos com RCF precoce, com menos de 30 semanas, em que foram terminadas as gravidezes, com base na ausência ou inversão de fluxo diastólico na artéria umbilical (N=139), com fetos com crescimento adequado à idade gestacional e sem alterações fluxométricas (N=946). Os resultados a destacar incluem mortalidades fetal e perinatal semelhantes, com sobrevivência aos dois anos e taxas de paralisia cerebral sobreponíveis. Não obstante, a sobrevivência sem anomalias do neuro-desenvolvimento foi mais baixa nos fetos com restrição de crescimento (62% vs 83%, P<0,001) relativamente aos sem restrição, com diferenças ainda mais acentuadas em idades gestacionais inferiores a 26 semanas. Este estudo pode apontar numa mudança de paradigma da nossa actuação clínica, sendo, no entanto, recomendada a realização de estudos prospectivos para a sua avaliação.