SUGESTÕES DA SEMANA

27/08/2021 — Sugestão da Semana por Inês Martins | Effects of the COVID-19 pandemic on maternal and perinatal outcomes: a systematic review and meta-analysis

Por Inês Martins |  Assistente Hospitalar de Obstetrícia e Ginecologia Serviço de Obstetrícia; Departamento de Obstetrícia, Ginecologia e Medicina da Reprodução; Hospital de Santa Maria – CHULN

Compreender os efeitos da doença COVID-19 na gravidez tem sido um desafio, mas uma avaliação de como a COVID-19 enquanto pandemia afetou os desfechos maternos e perinatais é crucial pelas importantes implicações para a saúde pública.

O objetivo desta revisão sistemática e meta-análise foi avaliar os efeitos da pandemia COVID-19 (e não apenas nas grávidas infetadas) nos desfechos maternos, fetais e neonatais.

Os resultados sugerem que alguns desfechos pioraram globalmente em relação ao período pré-pandémico: aumento da mortalidade materna (pooled OR 1,37 [1,22–1,53]), dos nados-mortos (pooled OR 1,28 [95% CI 1,07–1,54]) e da gravidez ectópica com necessidade de resolução cirúrgica (OR 5,81 [2,16-15,6]); e pior saúde mental das grávidas (Edinburgh Postnatal Depression Scale: diferença de médias 0,42 [95% CI 0,02-0,81]).

Quanto ao parto pré-termo os resultados são díspares entre populações, mantendo-se globalmente estável a sua ocorrência (pooled OR 0,94 [0.87–1,02]), mas nos países com maior desenvolvimento é aparente uma tendência de diminuição do PPT <37s e do PPT espontâneo (pooled OR 0,91 [0,84–0,99] e 0,81 [0,67–0,97], respetivamente). A análise estará limitada pela recolha retrospetiva de dados, heterogeneidade das populações e enviesamento de seleção associado à alteração da procura e da disponibilidade de acesso aos cuidados de saúde. Não perdem importância, contudo, as mortes maternas e fetais potencialmente evitáveis, nem o aparente impacto positivo das medidas adotadas nos países mais desenvolvidos na inesperada redução do risco de PPT<37s e de PPT espontâneo em 9% e 19%, respetivamente. Como nos apontam os autores, a reestruturação dos serviços tem mostrado que bons cuidados de saúde por via remota são exequíveis; a redução do tempo de permanência hospitalar é alcançável; e que problemas difíceis podem ser resolvidos pela articulação de financiamento, investigação científica e vontade política. Tiremos proveito destas lições e que possamos reduzir o PPT e a morbimortalidade materna e perinatal.