SUGESTÕES DA SEMANA

29/10/2021 — Sugestão da Semana por Ricardo Santos | Evaluation of a Risk-Stratified, Heparin-Based, Obstetric Thromboprophylaxis Protocol

Por Ricardo Santos | Assistente Hospitalar de Ginecologia/Obstetrícia – Hospital Senhora da Oliveira, Guimarães / CINTESIS – Faculdade de Medicina da Universidade do Porto

Várias sociedades de obstetrícia têm vindo a recomendar uma abordagem de profilaxia do trombo-embolismo venoso peri parto (TEV) baseada em risco estratificado, o que aumentou dramaticamente o uso de Heparina de Baixo Peso Molecular (HBPM), sobretudo após a cesariana.

Este artigo avalia, numa coorte de 24000 partos, a redução de risco de TEV e o aumento de complicações puerperais, com a introdução de um protocolo de risco, que aumentou 15x (para 15,6%) o número de puérperas sob profilaxia. Os autores concluíram que não houve diminuição estatisticamente significativa de eventos de TEV (15 antes/16 depois – 0,13%), mas o risco de complicações aumentou significativamente. Algumas complicações adicionais foram: hematoma da ferida por cada 333 puérperas tratadas; intervenção/cirurgia não planeada por cada 200; transfusão por cada 105. Nenhuma das 12 mortes registadas foi causada por TEV.

O estudo é observacional, retrospetivo e engloba 3 anos antes e 3 anos depois da intervenção, e por isso com risco de vários vieses, nomeadamente com as alterações registadas na amostra durante este período (ex. idade média, hipertensão crónica, uso de aspirina, perfil étnico). Os autores usaram métodos estatísticos adequados para considerar fatores confundidores, e foi feita análise extensa de registos clínicos ao invés de codificações administrativas, mas poderá ter falhado a identificação de complicações não tratadas na instituição.

A evidência por trás destas recomendações parece ser pouco forte, devendo ser revista. Este é talvez o estudo mais robusto do uso real das mesmas, enfatizando que esta exposição crescente de puérperas a HBPM não parece reduzir os eventos alvo e acrescenta morbilidade e custos significativos. Estes eventos são muito raros e difíceis de prever, os fatores de risco têm um valor preditivo extremamente baixo e a terapêutica tem efeitos adversos comprovados, levando a que o aforismo “mal não faz”, claramente, não se aplique.