Qualquer obstetra gostaria de ter a certeza de que toda e qualquer medicação administrada a uma grávida não terá repercussões no feto, seja a curto, seja a longo prazo.
O objetivo da terapêutica do parto pré-termo (PPT) é melhorar a sobrevida neonatal e o desenvolvimento saudável. No entanto, o efeito das intervenções perinatais, como o uso de tocolíticos, na morbilidade a longo prazo é desconhecido, principalmente porque o follow-up é escasso.
Este artigo pretendeu avaliar os efeitos a longo prazo da tocólise materna com Nifedipina ou Atosiban (os tocolíticos mais utilizados) no desenvolvimento neurológico, motor, comportamental e saúde em geral, das crianças entre os 2,5 e os 5,5 anos de idade. O trabalho baseou-se no estudo APOSTEL III em que 503 grávidas com PPT foram randomizadas para efetuar Nifedipina (n=248) ou Atosiban (n=255). A avaliação das respetivas 591 crianças baseou-se em 4 questionários validados enviados aos pais, os quais permitiram avaliar 115 crianças no grupo da Nifedipina e 110 crianças do grupo do Atosiban, com uma mediana das idades aquando do inquérito de 53 meses (IQR 46-57 meses).
Este estudo revelou que a longo prazo, os resultados foram comparáveis nos 2 grupos em termos de desenvolvimento neurológico, motor, comportamental e saúde em geral. Não se encontraram interações quando avaliados subgrupos quanto à existência de rotura de membranas, gravidezes únicas ou múltiplas e idade gestacional do parto.
Os pontos fortes deste estudo são ser o primeiro publicado sobre o tema e a taxa de resposta ter sido razoável (46%). Contudo, há também limitações: amostra limitada; o viés da exclusão de crianças mortas ou com deficiências graves; e, em vez de avaliações médicas, o uso de questionários.
Deste modo, com base na evidência científica disponível, não há preferência no uso de Nifedipina ou Atosiban no PPT, tendo em vista os desfechos a longo prazo.