Por Maria de Carvalho Afonso | Assistente Hospitalar de O/G / Departamento de Ginecologia, Obstetrícia e Medicina da Reprodução / Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte
A hemorragia vaginal do 1º trimestre é uma causa comum de ida ao serviço de urgência. Durante a avaliação ecográfica, constatamos frequentemente a existência de hematoma intra-uterino (HIU). A evidência publicada continua sem estabelecer uma associação clara entre presença de HIU durante o 1º trimestre e o risco de aborto, bem como o impacto do mesmo nos desfechos obstétricos a longo prazo. Este estudo do Imperial College pretendeu responder a estas duas questões.
Tratou-se de um estudo prospectivo observacional, que incluiu 1003 grávidas, recrutadas entre as 5 e 14 semanas de gestação e que realizaram avaliações ecográficas seriadas. Nesta coorte, a prevalência de HIU foi de 28%. A existência de HIU não aumentou o risco de aborto no 1ºtrimestre (OR 0.81, IC 95% 0.44 – 1.5), mesmo que acompanhado de hemorragia vaginal ou dor pélvica. Adicionalmente, o tamanho ou a localização do HIU não se associou a risco aumentado de aborto até às 14 semanas. No que toca aos desfechos obstétricos a longo prazo, a existência de HIU durante o 1º trimestre aumentou o risco de parto pré-termo ( OR 1.94, IC 95% 1.07 – 3.52) e rotura prematura de membranas pré termo ( OR 1.84, IC 95% 1.03 – 3.28).
Os pontos fortes deste estudo são o tamanho da amostra, o carácter prospectivo e o intenso follow up durante o primeiro trimestre. Apesar do tamanho da amostra ter permitido avaliar a relaçao entre HIU e aborto no 1º trimestre, a sua dimensão não foi suficiente para compreender o risco associado à maioria dos desfechos obstétricos devido à baixa frequência dos mesmos.
Este estudo permite um aconselhamento mais claro: 1) na avaliação ecográfica do 1º trimestre, uma em cada 4 mulheres poderá ter HIU e 2) a presença de HIU não aumenta o risco de aborto, mas sim de parto pré termo e rotura de membranas pré-termo.