SUGESTÕES DA SEMANA

30/10/2020 — Sugestão da Semana por Fátima Serrano | Levothyroxine and subclinical hypothyroidism in patients with recurrent pregnancy loss

Por Fátima Serrano | Assistente Hospitalar Graduada Sénior de Obstetrícia e Ginecologia – Maternidade Dr. Alfredo da Costa/ Centro Hospitalar Universitário de Lisboa Centra / Professora Auxiliar Convidada da NOVA Medical School da Universidade Nova de Lisboa

A associação entre o hipotiroidismo subclínico e a perda recorrente de gravidez, embora incerta, continua a ser apontada na literatura. Isto tem levado à prática de um rastreio generalizado e ao tratamento destas situações com levotiroxina, na tentativa de melhorar os desfechos obstétricos.

Neste estudo, observacional analítico de coorte, foram avaliadas 1418 gestações de 1102 mulheres com antecedentes de pelo menos 2 perdas gestacionais, que tiveram no mínimo uma gravidez posterior. A taxa de filhos-vivos subsequente foi comparada entre mulheres com hipotiroidismo subclínico com e sem tratamento e mulheres sem hipotiroidismo.

A prevalência global de hipotiroidismo subclínico foi de 14.4% (TSH >2.5 mIU/L com valores normais de tiroxina livre – T4).  Após exclusão de perdas devidas a aneuploidias, a taxa de filhos-vivos foi de 89.2% no grupo tratado com levotiroxina, 90.0% no grupo com hipotiroidismo subclínico sem tratamento e de 91.1% no grupo de mulheres sem hipotiroidismo. A taxa de filhos-vivos por gestação foi de 93.1%, 85.7% e 90.9% respetivamente, OR ajustado = 0.95 (0.23-3.83).

Destaco como pontos fortes deste estudo a dimensão da amostra, a exclusão nos resultados de perdas gestacionais devidas a alterações cromossómicas e o facto de estes terem sido controlados para potenciais fatores de confundimento, como a idade materna e a existência de tratamentos anteriores de infertilidade. Como principais limitações há a referir o não ter sido efetuada a determinação dos anticorpos antiperoxidase, bem como a decisão dos clínicos de iniciar terapêutica com de levotiroxina ter sido discricionária.

As conclusões deste estudo levantam mais uma vez a dúvida sobre a necessidade do rastreio e tratamento do hipotiroidismo subclínico em mulheres com perda gestacional recorrente e exigem uma reflexão crítica sobre a prática clínica existente.