SUGESTÕES DA SEMANA

06/11/2020 — Sugestão da Semana por Inês Martins | Corticosteroids in the Management of Pregnant Patients With Coronavirus Disease (COVID-19)

Por Inês Martins | Assistente Hospitalar de Obstetrícia e Ginecologia – Serviço de Obstetrícia; Departamento de Obstetrícia, Ginecologia e Medicina da Reprodução; Hospital de Santa Maria – CHULN

Numa altura em que o número de casos ativos de infeção pelo SARS-CoV-2 aumenta diariamente, aumentará proporcionalmente a probabilidade de casos de infeção grave em grávidas. A atual orientação da DGS relativa à COVID-19 na gravidez (018/2020) destaca a necessidade de ponderar em contexto multidisciplinar a instituição de terapêutica corticosteroide neste contexto. Assim, capacitar-nos com adequada informação científica é fundamental para melhor contribuirmos para esta decisão.

Apesar de ser um artigo de opinião, o comentário redigido por Saad, AF et al representa sobretudo um sumário do conhecimento disponível sobre a utilização dos corticosteroides na gravidez, nas síndromes de dificuldade respiratória aguda (SDRa) e particularmente na COVID-19.

O estudo RECOVERY mostrou que a dexametasona reduz a mortalidade por COVID-19 apenas nos doentes sob ventilação invasiva e naqueles que necessitam de suplementação de oxigénio; a gravidez não foi critério de exclusão, mas foram incluídas apenas seis grávidas e nessas o protocolo recomendava prednisolona ou hidrocortisona. Em relação à SDRa (não COVID-19), os estudos mostram benefícios associados à terapêutica com metilprednisolona ou dexametasona.

Na gravidez, perante alta probabilidade da ocorrência de parto pré-termo no prazo de uma semana, estão estabelecidos os benefícios neonatais da indução maturativa com dexametasona ou betametasona; optar pela dexametasona caso a grávida apresente infeção grave pelo SARS-CoV-2 parece sensato atendendo aos potenciais benefícios maternos. Quando o objetivo é melhorar o desfecho da grávida com COVID-19 grave, mas não a maturação fetal, os autores do artigo que vos apresento sugerem a utilização de metilprednisolona, baseando-se nos efeitos benéficos comprovados nas situações de SDRa (não COVID-19) e na ausência dos efeitos secundários neonatais associados à utilização prolongada de dexametasona. A atual norma da DGS sobre abordagem do doente com COVID-19 (004/2020) recomenda apenas a consideração da dexametasona nos casos graves e críticos, desde que assegurado o benefício face ao risco.