SUGESTÕES DA SEMANA

13/11/2020 — Sugestão da Semana por Fernando Jorge Costa | In vitro fertilization as an independent risk factor for placenta accreta spectrum

Por Fernando Jorge Costa | Assistente Hospitalar Graduado, Serviço de Obstetrícia A, Centro Hospitalar Universitário de Coimbra – CHUC

A suposta falha local na decidualização que permite uma excessiva “invasão” trofoblástica extravilositária, integrando a “Placenta Accreta Spectrum” (PAS), com maior risco para antecedentes de cesariana e placenta prévia, pode originar, mais tarde, situações hemorrágicas catastróficas. O diagnóstico de suspeição e planeamento cirúrgico em unidades de saúde adequadas, prévio à entrada em trabalho de parto ou hemorragia, são decisivos. Vários estudos têm vindo a sugerir a fertilização in vitro e, sobretudo, a transferência de embriões crio-preservados, como fator de risco para PAS. Interroga-se ainda o papel do nível sérico de estrogénios na qualidade da decidualização. Neste estudo retrospectivo, realizado em hospitais diferenciados, de 2012 a 2019, foram englobados 37.461 partos, com vista a avaliar o risco de PAS após PMA, na presença de outros fatores major. Apenas foram incluídos casos de PAS comprovados histologicamente. A prevalência foi de 0,6%. 15% das doentes tinha tido, pelo menos, uma cesariana e 1,5% do total resultou de PMA. As situações com diagnóstico de PAS verificaram-se em mulheres mais velhas, com mais antecedentes de cesariana anterior (aOR =21,1), placenta prévia (aOR=94,6) ou PMA (aOR=8,7). Em quase 70% dos casos de PAS houve antecedentes de cesariana anterior e placenta prévia. Na associação de PMA aos anteriores o risco foi de 100%. A ocorrência de PAS aumenta com o número de cesarianas. A idade gestacional no parto foi 5 semanas mais cedo nos casos de PAS. A PMA foi considerada fator de risco independente para a PAS, ainda que não tão marcado quanto os antecedentes de cesariana e placenta prévia. Como pontos fortes do estudo sublinha-se a importância crescente do tema, a utilização de uma base de dados estruturada (PeriBank), o número significativo de partos e a confirmação histológica do diagnóstico. Pontos fracos foram a não definição de critérios de exclusão, a heterogeneidade da população e dos protocolos de PMA. O trabalho publicado é importante pela atualidade, peso crescente da procriação medicamente assistida (PMA) na realidade obstétrica, valorização de equipas multidisciplinares perinatais e pela morbi-mortalidade potencial associada à placentação anómala.