Por Rui Marques de Carvalho | Assistente Graduado de Obstetricia e Ginecologia do Hospital de Santa Maria/CHULN / Coordenador da Unidade de Ecografia e DPN do Hospital de Santa Maria/CHULN / Assistente-Convidado da Faculdade de Medicina de Lisboa
Numa era de globalização onde constatamos um mundo a duas velocidades, é por demais evidente a desigualdade da distribuição da riqueza e a brutal assimetria no acesso aos cuidados de saúde. E se, no mundo dito desenvolvido, há temas bem sedimentados e que nos parece redundante a sua discussão, como a administração de glicocorticóides para a maturação fetal, o mesmo não se passa em países com baixos recursos, onde esta prática gerou controvérsia após a publicação de um ensaio em 2015, na revista Lancet, que não demonstrou diminuição da mortalidade para recém-nascidos com peso inferior ao percentil 5 e, inesperadamente, um aumento da mortalidade neonatal, morte fetal e infecção materna. Assim, neste sentido e de forma a clarificar a eficácia e os riscos associados à administração de glicocorticóides, a OMS promoveu um ensaio aleatorizado em grávidas de países de baixo recurso em risco de parto pré-termo (WHO ACTION-I). Este foi publicado com acesso livre no NEJM em Outubro de 2020.
Este ensaio, patrocinado pela Bill and Melinda Gates Foundation e pela OMS, foi conduzido em 29 hospitais secundários e terciários em 5 países de baixos recursos (Bangladesh, Índia, Quénia, Nigéria e Paquistão). Consistiu num estudo aleatorizado e duplamente cego, onde foram administrados placebo e dexametasona, por via intramuscular, em grávidas em risco de parto pré-termo eminente.
Entre 12/2017 e 11/2019 foram submetidas a aleatorização 2852 grávidas (1429 no grupo da dexametasona e 1423 no placebo) tendo sido verificada uma incidência significativamente mais baixa de morte fetal e neonatal com a administração de corticóides. Paralelamente, não foi demonstrado um aumento do risco de infecção materna ou neonatal, confirmando o benefício da sua administração.