Por Alexandra Miranda | Assistente Hospitalar de Ginecologia e Obstetrícia, Hospital de Braga / Assistente Convidada da Escola de Medicina da Universidade do Minho
As complicações hipertensivas da gravidez constituem uma causa major de desfechos maternos e neonatais adversos. Os critérios diagnósticos das doenças hipertensivas da gravidez baseiam-se na definição prévia da American Heart Association/American College of Cardiology de tensão arterial (TA) ≥140/90mmHg. Em 2017, as mesmas Sociedades Científicas definiram o estadio 1 da hipertensão como TA de 130-139/80-89mmHg. O presente estudo avaliou se elevações moderadas da TA (130-139/80-89mmHg) após as 20 semanas de gestação, em mulheres previamente normotensas, se associavam a desfechos adversos da gravidez, em particular ao desenvolvimento de distúrbios hipertensivos. Foi conduzido um estudo coorte retrospetivo envolvendo 2090 grávidas. Cerca de 63% (1318 participantes) mantiveram-se normotensas durante todo o período pré-natal e 37% (772 participantes) manifestaram elevações tensionais de novo entre 130-139/80-89mmHg. Mulheres com TA entre 130-139/80-89mmHg após as 20 semanas eram mais frequentemente nulíparas, obesas e com maior taxa de diabetes prévia e diabetes gestacional. Este grupo apresentou 2,4 vezes maior risco de manifestar qualquer distúrbio hipertensivo da gravidez (32.0%vs.11.6%) e quase 3 vezes maior risco de desenvolver pré-eclâmpsia com critérios de gravidade (6.6%vs.1.9%), mesmo após ajuste para os fatores confundidores, com uma mediana de idade gestacional ao diagnóstico de 39 semanas. A sensibilidade e especificidade da TA de 130-139/80-89mmHg para identificar mulheres em risco de desenvolvimento de distúrbios hipertensivos da gravidez foi, respetivamente, 61,8% e 68,9%, com valor preditivo (VP) positivo de 32,0% e VP negativo de 88,4%. Estes achados questionam os atuais pontos de corte para definição de elevação tensional na gravidez e identificam um grupo de grávidas que pode beneficiar de indução eletiva de trabalho de parto pelas 39 semanas. Como pontos fortes do estudo salienta-se o número de participantes e a pertinência/atualidade do tema. Como limitações destaca-se o desenho retrospetivo, a não uniformização da avaliação da TA e a categorização dos grupos baseada numa avaliação tensional única.