Por Mónica Centeno | Assistente Hospitalar Graduada de Obstetrícia e Ginecologia – Serviço de Obstetrícia, Departamento de Ginecologia, Obstetrícia e Medicina da Reprodução – Hospital de Santa Maria, Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte. / Assistente Convidada da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa
A ameaça de aborto é uma das situações clínicas mais frequentes na prática obstétrica, para a qual, no entanto, não dispomos de uma terapêutica comprovadamente eficaz.
Vários estudos têm tentado avaliar a eficácia da terapêutica com progesterona (por via oral ou por via vaginal) na ameaça de aborto.
A presente metánalise incluiu 10 RCTs criteriosamente selecionados que no total incluíram 5056 grávidas com o diagnóstico de ameaça de aborto.
Os autores concluíram que a terapêutica com progesterona pode ter benefício no aumento da taxa de nados vivos e na diminuição da taxa de aborto. Estes benefícios parecem limitar-se ao uso da progesterona por via oral (maior incidência de nados vivos RR 1.17 [IC 1.04-1.31] e menor incidência de aborto RR 0.73 [IC 0.59-0.92]), não se tendo verificado melhoria destas taxas no subgrupo em que se usou a progesterona por via vaginal.
O principal ponto forte deste trabalho é a metodologia de seleção e análise dos RCTs. Como limitações aponto a inclusão de RCTs com amostras pequenas e a heterogeneidade das populações estudadas nos vários trabalhos no que respeita à história obstétrica, à idade gestacional no início da terapêutica e à dose de progesterona utilizada.
A evidência apresentada sugere que a progesterona administrada por via oral pode melhorar os desfechos associados à ameaça de aborto. No entanto, as limitações acima apontadas e os intervalos de confiança marginais levam à conclusão de que são necessários estudos aleatorizados com maior número de grávidas para comprovar a eficácia da progesterona neste contexto clínico.