SUGESTÕES DA SEMANA

20/11/2020 — Sugestão da Semana por Catarina Policiano | Valaciclovir to prevent vertical transmission of cytomegalovirus after maternal primary infection during pregnancy: a randomised, double-blind, placebo-controlled trial

Por Catarina Policiano | Assistente Hospitalar de Ginecologia e Obstetrícia – Departamento de Obstetrícia, Ginecologia e Medicina da Reprodução; Hospital de Santa Maria – CHULN

A infeção por Citomegalovírus (CMV) é a causa mais frequente de infeção viral congénita. Até à data não dispomos de vacina ou terapêutica antiviral eficaz na diminuição da sua transmissão vertical.

Realizado após o diagnóstico de infeção primária peri-conceção ou no primeiro trimestre, este estudo aleatorizado comparou a eficácia do Valaciclovir oral 8 g/dia (n=45) versus placebo (n=45) na diminuição da transmissão vertical de CMV, documentada pela presença de DNA viral no líquido amniótico às 21-22 semanas.

Comparado com o grupo placebo, o grupo de grávidas tratadas com Valaciclovir apresentou uma diminuição da taxa de transmissão vertical (11% vs 30%, p=0,027); esta diferença foi ainda mais evidente no grupo com infeção no primeiro trimestre, (11% vs 48%, p=0,020). As grávidas com amniocentese positiva para CMV iniciaram a terapêutica significativamente mais tarde em comparação com as grávidas com amniocentese negativa, o que reforça a importância da deteção precoce da infeção.

As principais limitações deste estudo foram: a amostra pequena (n=90); a análise por protocolo, o que pode implicar menor eficácia do fármaco na prática clínica real. De salientar ainda que 6 recém-nascidos apresentaram DNA urinário positivo para CMV apesar de amniocentese negativa, podendo corresponder a infeções tardias, que são mais frequentes, mas de melhor prognóstico do que as precoces.

Os resultados deste estudo fazem-nos refletir sobre a utilidade do rastreio universal da infeção por CMV, particularmente no primeiro trimestre. Sendo a causa mais frequente de infeção congénita, a incidência de infeção primária na grávida é superior à de outras infeções que rastreamos na prática clínica atual, tal como a toxoplasmose. A possibilidade de oferecermos uma terapêutica eficaz para a diminuição da transmissão vertical poderá diminuir o número de interrupções médicas da gravidez, de infeção congénita e de sequelas neonatais graves associadas.