Por Cristina Nogueira-Silva | Assistente Hospitalar de Ginecologia e Obstetrícia do Hospital de Braga / Professora Auxiliar da Escola de Medicina da Universidade do Minho / Investigadora do ICVS e do Laboratório Associado ICVS/3B’s
A administração de aspirina em baixa dose (75 a 150 mg/dia), das 12 semanas de gestação até ao parto é atualmente recomendada às grávidas com risco aumentado de desenvolver pré-eclâmpsia. Tendo em conta a evidência de complicações hemorrágicas na utilização de aspirina na população não grávida, este artigo teve como objetivo estudar se a utilização de aspirina durante a gravidez se associa a um aumento do risco de complicações hemorrágicas.
Trata-se de um estudo coorte, incluindo 313.624 mulheres com partos registados de janeiro de 2013 a julho de 2017 no Swedish Pregnancy Register (que inclui 90% de todos os partos da Suécia). Destas mulheres, 4.088 (1,3%) foram medicadas com aspirina durante a gravidez. A utilização de aspirina na gravidez não se associou a mais complicações hemorrágicas anteparto, mas sim a maior incidência de hemorragia intraparto (2,9% vs. 1,5%; ORa 1,63; IC 95%: 1,30-2,05) e pós-parto (10,2% vs. 7,8%; ORa 1,23; IC 95%: 1,08-1,39). Quando o parto foi vaginal, a aspirina associou-se também a maior risco de hematoma pós-parto (ORa 20,41; IC 95%: 2,62-158,93) e hemorragia intracraniana neonatal (ORa 17,07; IC 95%: 3,70-78,86), o que não se verificou se parto por cesariana.
De salientar a dimensão da amostra, a atualidade dos dados e o facto de ser um estudo de base populacional como pontos fortes deste trabalho. Como limitações saliento o facto da dose de aspirina utilizada não ter sido registada e, sendo uma base de registo obstétrica, a possibilidade de complicações hemorrágicas não obstétricas, tais como gastrointestinais, tenham sido subnotificadas.
Assim, e de acordo com este estudo, a utilização de aspirina na gravidez associa-se a aumento de complicações hemorrágicas intra e pós-parto, devendo por isso a sua prescrição ser reservada para as mulheres com risco aumentado de pré-eclâmpsia, e não ser administrada de forma universal como alguns autores têm defendido.