SUGESTÕES DA SEMANA

09/04/2021 — Sugestão da Semana por Joana Raquel Silva | The impact of the definition of preeclampsia on disease diagnosis and outcomes: a retrospective cohort study

Por Joana Raquel Silva | Assistente Hospitalar de Ginecologia e Obstetrícia, Serviço de Ginecologia e Obstetrícia – Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia /Espinho

Os critérios de pré-eclampsia têm evoluído da definição tradicional de hipertensão de novo e proteinúria, para outros, mais abrangentes, que incluem disfunção de órgão-alvo, levando ao aumento no número de diagnósticos.  Os autores do artigo questionam se esta mudança reflete a verdadeira etiologia da síndrome e se é preditiva da severidade dos desfechos maternos e perinatais. Pretendem, ainda, perceber a associação dos critérios individuais utilizados com os desfechos obstétricos obtidos.

Este estudo, retrospetivo e de coorte, incluiu 751 grávidas com pré-eclampsia. Os resultados mostram que, por cada 100 casos de pré-eclampsia definida pelos critérios clássicos, as mais recentes classificações (ACOG e ISSHP 2018) adicionam seis e 15 casos, respetivamente. Estes casos adicionais caracterizam-se por um fenótipo menos grave da doença (com menores taxas de hipertensão severa e necessidade de administração de sulfato de magnésio), uma tendência no sentido de incremento da idade gestacional do parto menor incidência de prematuridade e desfechos perinatais adversos. Adicionalmente, os critérios objetivos, como trombocitopenia, proteinúria, disfunção renal e hepática e restrição de crescimento fetal (incluída apenas na definição da ISSHP 2018), associam-se a um risco aumentado de outcomes desfavoráveis, o que não acontece com os critérios subjetivos, como cefaleias e alterações visuais.

A discussão e as conclusões remetem-nos para a noção de que a decisão de adotar uma definição mais inclusiva de pré-eclâmpsia tem várias implicações clínicas, nomeadamente, um aumento na iatrogenia e encargos em saúde, sem uma inequívoca associação a um claro e evidente benefício. Fica a questão da restrição de crescimento fetal como critério inclusivo para o diagnóstico (foi o critério que de forma mais importante se associou a maus desfechos) e a necessidade de estudos prospetivos que permitam determinar o tipo de vigilância nos casos definidos exclusivamente pelos critérios recentes. Salvaguarda-se, ainda, o papel promissor dos marcadores bioquímicos de pré-eclampsia na definição de caso, quando a proteinúria está ausente.