Por Jorge Lima | Coordenador de Obstetrícia do Hospital CUF Descobertas / Professor Auxiliar Convidado e Investigador do Comprehensive Health Research Centre (CHRC), CEDOC, NOVA Medical School, Universidade Nova de Lisboa
O sulfato de magnésio (MgSO4) é um dos fármacos mais utilizados nos serviços de urgência de obstetrícia, no tratamento e profilaxia das convulsões na pré-eclâmpsia/eclâmpsia e na neuroprotecção fetal na ameaça de parto pré-termo. Apesar do seu mecanismo de ação não estar completamente esclarecido, sabe-se que interfere com o balanço intracelular entre o cálcio e o magnésio, reduz a excitabilidade do córtex cerebral, diminui a acetilcolina na junção neuromuscular, interfere com a actina-miosina, bloqueia os recetores NMDA e antagoniza algumas catecolaminas. Esses efeitos resultam numa vasodilatação arterial, numa diminuição da pressão sistólica, numa diminuição da contractilidade uterina e num relaxamento miometrial. Tem sido sugerido que esse efeito colateral tocolítico do MgSO4 possa, no pós parto, interferir com a involução uterina, aumentando o risco de atonia uterina e de hemorragia pós parto.
Esta meta-análise revelou que o risco de atonia uterina no pós parto foi semelhante entre os mulheres que fizeram e as que não fizeram MgSO4. Da mesma forma, a perda de sangue estimada também foi comparável embora se observasse um aumento, não estatisticamente significativo, do risco de hemorragia pós-parto com o uso de MgSO4.
Como aspeto positivo salienta-se o facto desta meta-análise ter tido por base modelos que diminuem a heterogeneidade metodológica entre os estudos incluídos e como aspeto negativo o facto de alguns dos estudos analisados não terem sido desenhados com o objetivo primário de investigar o impacto do MgSO4 no risco de atonia e hemorragia pós parto, tendo esta evidência sido extraída de forma indireta.
Os achados desta meta-análise contradizem o fundamento fisiopatológico de que o uso de MgSO4 aumenta o risco de atonia uterina e de hemorragia pós parto, afirmando a segurança do seu uso no periparto. Sendo assim, em situações em que o parto é inevitável, não há necessidade de suspensão do uso de MgSO4, decepando os seus potenciais efeitos benéficos.