Por Andreia Fonseca | Assistente hospitalar de Obstetrícia e Ginecologia, Serviço de Obstetrícia, Departamento de Obstetrícia, Ginecologia e Medicina da Reprodução do Hospital de Santa Maria – Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte
A cesariana é um dos procedimentos cirúrgicos mais frequentemente realizados em todo o mundo, verificando-se, nas últimas décadas, um aumento progressivo da incidência desta via de parto. São sobejamente conhecidas as potenciais complicações maternas decorrentes da cesariana. Atendendo à frequência com que realizamos esta cirurgia, é fulcral que, cada vez mais, procuremos afinar e melhorar a técnica cirúrgica, por forma a minimizar a morbilidade materna resultante da mesma.
Esta meta-análise teve como objetivo avaliar o impacto da extensão digital da histerotomia no sentido crânio-caudal, em comparação com a extensão digital lateral, nos desfechos adversos maternos, nomeadamente perda hemática intraoperatória, lesão dos vasos uterinos e laceração do segmento inferior. Foram incluídos seis estudos aleatorizados e controlados, perfazendo um total de 2818 mulheres submetidas a cesariana com incisão transversal no segmento inferior.
A extensão digital da histerotomia no sentido crânio-caudal diminuiu em cerca de 40% o risco de laceração do segmento inferior (RR 0,62; IC95% 0,45-0,86) e em cerca de 45% o risco de lesão dos vasos uterinos (RR 0,55; IC95% 0,41-0,73). Não se verificaram diferenças estatisticamente significativas para os restantes desfechos avaliados, nomeadamente hemorragia intraoperatória, necessidade de pontos hemostáticos adicionais, de suporte transfusional ou de prolongamento da histerotomia com incisão corporal. A duração do procedimento também não diferiu significativamente entre os dois grupos.
O facto de terem sido incluídos apenas estudos aleatorizados e controlados é o principal ponto forte. No entanto, os grupos não são comparáveis quanto ao estadio do trabalho de parto e as indicações cirúrgicas, bem como a existência de cesariana anterior, nem sempre foram especificadas nos estudos incluídos.
A extensão digital da histerotomia no sentido crânio-caudal é preferível à extensão digital transversal, pois reduz o risco de extensão inadvertida da histerotomia e de lesão dos vasos uterinos.