Por Nuno Clode | Assistente Hospitalar Sénior de Obstetrícia e Ginecologia / Hospital CUF Descobertas
A importância do Índice de Massa Corporal (IMC) materno para o sucesso da versão cefálica externa (VCE) tem sido alvo de controvérsia havendo estudos que demonstram que não interfere e outros que mostram que o diminui. Um dos factores que pode ter contribuído para os resultados obtidos é o de serem séries de um único centro e de, por isso, ter havido um viés de seleção. Assim, para conhecer a associação entre o IMC e o sucesso da manobra os autores fizeram um estudo retrospectivo em que analisaram 2331 VCE feitas em 7 centros do Sudoeste da Suécia entre 2014 e 2019. Todos os procedimentos foram realizados a partir das 36 semanas e sempre sob tocólise; não foram consideradas repetições da manobra.
Os autores obtiveram uma taxa de sucesso de VCE de 53,4% e quer na população com excesso de peso (27,8%) como na obesa (IMC≥30kg/m2; 16,5%) não houve diferença significativa nessa taxa quando comparada com a população de grávidas com peso adequado quando ajustados os factores de idade materna, paridade, localização placentária e posição do polo cefálico antes da execução da VCE.
Aparentemente, na Suécia, a população a quem é oferecida VCE não a recusa. Desta forma, os resultados não apresentam viés de seleção; os autores consideram como pontos fortes terem sido excluídas repetições da manobra assim como a dimensão da amostra. As limitações decorrem das características do estudo – ser retrospectivo -, do pequeno número de gravidas com IMC ≥ 35kg/m2 e de não ter sido possível saber da experiência do executante.
A obesidade materna não parece influenciar negativamente o sucesso da VCE. Esta conclusão pode encorajar, quer os médicos/enfermeiros quer as grávidas, a tomar a decisão de realizar a manobra na população de grávidas obesas.