Por Vanessa Silva | Assistente Hospitalar de Ginecologia e Obstetrícia no Hospital Senhora da Oliveira – Guimarães e Assistente Convidada da Escola de Medicina da Universidade do Minho
Farland et al. realizaram um estudo de coorte retrospetivo com o intuito de avaliar a associação entre antecedentes de endometriose e de miomas uterinos e o risco de desfechos gestacionais adversos. Foram motivados pela elevada prevalência destas patologias (10% das mulheres em idade reprodutiva tem endometriose e 20-40% miomas uterinos) e pelo facto de os estudos prévios terem sido realizados em contexto de procriação medicamente assistida (PMA), o que condiciona a extrapolação dos resultados para a população geral.
Das 91,825 gestações analisadas. 1560 (1,7%) apresentavam antecedente de endometriose e 4212 (4,6%) de miomas uterinos. 30% das mulheres com endometriose e 26% com miomas uterinos experienciaram subfertilidade ou infertilidade sem necessidade de técnicas de PMA para conceber, enquanto 34% e 21% necessitaram de PMA, respetivamente. A endometriose associa-se a maior risco de hipertensão gestacional, pré-eclâmpsia ou eclâmpsia (risco relativo ajustado (RR) 1,17), anomalias da placentação (RR 1,65), parto por cesariana (RR 1,22) e parto pré-termo (RR 1,24). No mesmo sentido, os miomas uterinos associam-se a maior risco de anomalias da placentação (RR 1,38), parto por cesariana em primíparas (RR 1,17) e parto pré-termo (RR 1,17). Mulheres com endometriose, sem infertilidade não apresentaram risco acrescido de anomalias da placentação. Por outro lado, os recém-nascidos de mulheres não inférteis, com miomas uterinos, apresentaram maior risco de baixo peso ao nascer.
O tamanho da amostra é um ponto forte deste estudo. O seu desenho retrospetivo, a ausência de informação acerca do tipo de mioma, gravidade da endometriose e realização de tratamentos prévios à gestação para estas patologia são limitações. A inclusão de gestações gemelares, associadas a maior morbilidade gestacional e a técnicas de PMA, poderá condicionar um viés. Não obstante, este estudo salienta que mulheres com endometriose e miomas uterinos têm risco acrescido de desfechos gestacionais adversos. Esta evidência poderá justificar o rastreio e tratamento prévio à gravidez destas patologias, bem como um acompanhamento individualizado durante a gestação.