Por Inês Nunes | Assistente Hospitalar de Ginecologia e Obstetrícia, Centro Materno-Infantil do Norte – CMIN, Centro Hospitalar e Universitário do Porto – CHUPorto.
Professora Auxiliar Convidada do ICBAS – School of Medicine and Biomedical Sciences, Universidade do Porto, Porto
Apesar dos avanços na adequada abordagem clínica, a hemorragia pós-parto (HPP) continua a ser um dos principais fatores contributivos para a morbilidade grave e mortalidade materna. Sabe-se que a exposição prolongada à ocitocina durante o trabalho de parto constitui um fator de risco importante para HPP, e que mulheres submetidas a cesariana intraparto quando comparadas com as submetidas a cesarianas electivas necessitam de doses mais elevadas de agentes uterotónicos, profiláticos e terapêuticos.
Neste ensaio randomizado (RCT) foram incluídas grávidas submetidas a cesariana intraparto que receberam aleatoriamente metilergonovina e ocitocina (80) ou placebo e ocitocina (80). As grávidas do grupo metilergonovina necessitaram significativamente menos de agentes uterotónicos adicionais (20% vs 55%, RR 0.3, IC95% 0.2-0.6), apresentando maior probabilidade de tónus uterino satisfatório (80% vs 41%, RR 1.9, IC95% 1.5–2.6), menor incidência de HPP (35% vs 59%, RR 0.6, IC 95% 0.4–0.9), menor perda hemática média (967 mL vs 1,315 mL; diferença média 348, IC 95% 124–572), e menor necessidade de transfusão de CE (5% vs 23%, RR 0.2, IC95% 0.1–0.6).
Os pontos fortes deste estudo são a sua metodologia (RCT) e a utilização de um protocolo de profilaxia de HPP amplamente implementado nos EU, tornando-o aplicável em qualquer instituição americana. As principais limitações residem na definição subjetiva do desfecho primário – no entanto, a avaliação do tónus uterino é um método genericamente utilizado pelos clínicos para avaliar a necessidade de utilização de agentes uterotónicos adicionais. Além disso, a utilização de agentes uterotónicos adicionais não foi ocultado do obstetra responsável pela grávida. Adicionalmente, este estudo apenas utilizou a metilergonovina – de utilização limitada em muitos países e que apresenta inúmeras contra-indicações (nomeadamente, a existência de patologia hipertensiva).
Seria interessante, no futuro, estudar comparativamente outras combinações de fármacos, nomeadamente diferentes prostaglandinas/ ácido tranexâmico em associação à ocitocina, na cesariana intraparto.