Por Sofia Bessa Monteiro | Assistente Hospitalar de Ginecologia/Obstetrícia – Serviço de Obstetrícia/ Centro Hospitalar de S João
O parto pré-termo é um dos maiores problemas em Saúde Pública, sendo a principal causa de morbimortalidade neonatal. Dada a sua natureza multifactorial, tem sido difícil estabelecer um modelo preditivo eficaz.
O principal objectivo deste estudo retrospectivo de 9298 mulheres submetidas a rastreio de pré-eclâmpsia, foi o de determinar se os marcadores bioquímicos da função placentária, medidos no primeiro trimestre, poderiam ser utilizados como método de rastreio de parto pré-termo espontâneo.
Foram identificados como factores de risco quer para parto pré-termo, quer para rotura prematura de membranas pré-termo (<37 semanas) , a conceção pós-FIV e o parto pré-termo anterior. A hipertensão crónica surgiu como factor de risco para parto pré-termo espontâneo, o que não tinha sido até agora reportado. Os valores médios de PlGF e PAPP-A encontravam-se significativamente reduzidos nas mulheres com rotura prematura de membranas pré-termo e parto pré-termo espontâneo (<37 semanas), comparadas com as mulheres com nascimento a termo. O modelo preditivo testado, utilizando factores maternos associados aos valores de PAPP-A e PlGF, apresentou melhor desempenho para a deteção de parto pré-termo espontâneo do que os factores maternos isolados (taxa de deteção 27.3% e 14.8%, respectivamente, com IC 95% para uma taxa fixa de 10% falsos positivos). Apesar de ser um estudo produzido a partir duma coorte alargada, que veio reforçar resultados prévios que sugerem um papel da insuficiência placentária não só no parto pré-termo iatrogénico, mas também no parto e rotura prematura de membranas pré-termo espontâneos, este modelo apresenta uma eficácia de rastreio subóptima e não é facilmente perceptível a sua plausabilidade biológica. Por isso, apesar de abrir portas para o desenvolvimento dum modelo de rastreio precoce utilizando biomarcadores de função placentária, obriga a investigação adicional antes de poder ser equacionado para a prática clínica.