Por Luísa Pinto | Assistente Hospitalar Graduada Sénior de Obstetrícia e Ginecologia – Centro Hospitalar Universitário de Lisboa Norte
Basicamente, todas as grávidas com placenta prévia/baixamente inserida (PBI) no 3º trimestre, eram submetidas a cesariana eletiva. Literatura recente tem levantado a hipótese de oferecer, a grávidas com PBI, a possibilidade de um parto vaginal.
O objetivo deste estudo retrospetivo multicêntrico foi comparar desfechos entre mulheres com PBI, de acordo com a via de parto programada e com a distância da placenta ao orifício interno (OI) do colo. Incluíram-se 70 grávidas com PBI após as 35 semanas – Grupo1 (40,9%) – prova de trabalho de parto, Grupo2 (59,1 % ) – cesariana eletiva.
O desfecho primário foi a hemorragia pós-parto (HPP) grave – > 1000ml nas 24 horas após o parto – e os secundários, desfechos compostos de variáveis de morbilidade materna e neonatal graves.
A taxa de HPP grave não apresentou diferença com significado estatístico entre os grupos – grupo 1, 22,9% (95% CI 13.7–34.4) e grupo 2, 23% (95% CI 15.2–32.5) (p=0,9) mesmo utilizando regressão logística multivariada e “propensity scores” para idade materna, IMC, paridade, cesariana prévia, hemorragia anteparto e distância placenta-OI do colo. Os desfechos maternos ou neonatais não apresentaram diferenças significativas entre os grupos.
O parto vaginal ocorreu em 50% nas grávidas com PBI a 11-20mm do OI e em 18,5% de grávidas com PBI a 1-10mm do OI; a taxa de cesariana emergente foi de 27.0% e 50.0% (p =.06) respetivamente.
Estes resultados corroboram achados de estudos anteriores com muitas reservas metodológicas.
Apesar de ser retrospetivo tem como pontos fortes: dimensão da amostra, desenho do estudo e metodologia estatística para controlo de variáveis confundidoras.
Estes resultados suportam a recomendação de algumas sociedades de considerar, através de decisão partilhada, uma tentativa de parto vaginal em mulheres com PBI, sobretudo quando a distância ao OI do colo se situa entre 11 e 20 mm.